Em meio a tantas notícias ruins vindas do Hemisfério Norte, em meio ao medo de uma III Guerra, surge hoje uma notícia engraçada que vem do Superior Tribunal Militar (SPM). A notícia é hilária para nós que não somos de Varginha e não vivemos do ETturismo: o ET de Varginha era apenas um homem com problemas mentais que costumava andar agachado. A conclusão veio hoje do SPM, que guardava documentos com cerca de 300 páginas de Inquérito Policial Militar (IPM) que investigava as aparições do suposto ET.
Segundo o SPM tudo não passou de história fictícia que começou com três meninas que juraram ter visto o ET em um dia de chuva muito forte. A história pode ter surgido depois de interpretações equivocadas. Toda a documentação da pesquisa sobre ET está disponível no site do SPM. Sem dúvida, ter acesso a esse documento é entrar num oásis de tranquilidade e humor, que talvez nos afaste um pouquinho da nossa paranoia causada por Trump neste comecinho de ano.
Mas, talvez, ao ler o material, a gente se afunde no estudo de caso e na reflexão de como nascem os boatos. Talvez ao ler o material em vez de rir a gente faça uma análise linguística sobre como as narrativas inverídicas são criadas por erro de interpretação. E ao fazer essas análises, a leitura do documento não será mais hilária e, com isso, cairemos mais uma vez na atual realidade sobre teoria da conspiração, sobre criação de notícias falsas e de grave erro interpretativo — erro que é característica comum a quase todos os bolsonaristas, com provável exceção dos mal-intencionados ou de cristãos fundamentalistas, sobretudo evangélicos — não agravando a todos, é claro, já que há os que não são da extrema direita.
Quem dera a narrativa da invasão dos Estados Unidos à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro fossem também ficção, um boato como esse do qual o SPM julgou e concluiu! Mas o que aconteceu com nosso país irmão não é ficção. Ficção mesmo só tem a versão dos extremistas da direita brasileira que criaram o fato de que Trump sequestrou Nicolás Maduro para “o bem da democracia”. Há duas quase coincidências entre o caso de Varginha e os acontecimentos que vêm do Norte: um homem com visíveis transtornos mentais e dois continentes que andam agachados com medo desse homem.
Quanto ao não-ET de Varginha: o que será do turismo ufológico daquela cidade? A prefeitura com o elevador em formato de nave espacial, formato de nave espacial no aeroporto, pontos de ônibus em formato de nave espacial, estátua do ET, memorial do ET… O que serão desses monumentos? Talvez ganhem, não pelos moradores ou pelos prefeitos de Varginha, um novo significado: “monumento ao erro de interpretação, à disseminação de informações falsas e à consubstanciação de efeito manada”. Se o setor de turismo adotar esse novo padrão para os monumentos de lá, talvez consiga manter o turismo dando nova significação. Os monumentos poderão ser cenários para belas discussões filosóficas e linguísticas.
Vald Ribeiro