CRÔNICA
A mesa cheia de testes, de avaliações finais. Do lado direito as avaliações por corrigir; do lado esquerdo as corrigidas, na cadeira uma pasta aberta derramando mapas de notas. É manhã e o silêncio é perfeito. Sentada, tórax curvado, Carmília corrigia ainda os testes que os alunos fizeram há um mês. Silêncio perfeito: tudo que queria! Os dois filhos na escola, o marido cumprindo suas tarefas de policial em algum lugar da cidade.
Tão bom ficar sozinha e sem aulas! A paralização dos professores veio a calhar. A esta hora, certamente, colegas já se dirigiam para o ato de manifestação contra o parco aumento de salário que o Governo pretendia dar. Pagamento parcelado em três vezes. Para que lutar? E se depois de toda a luta o Governo não desse o aumento? Dava nada! Mas se concedesse o aumento que a categoria exigia seria bom. Também com a direção pelega do Sindicato, como é que a categoria iria conseguir algo? Seria pelega mesmo? — ela ia pensando na pequena pausa de cansaço antes de pegar a outra avaliação para corrigir.
A dorzinha chata de cabeça. O cérebro feito um balão com um gás estranho. Por que a dor se tinha tomado o comprimido de hipertensão assim que acordara, se tinha tomado o relaxante depois do café?
Mais uma avaliação em mãos. A raiva pelo terrível erro na escrita e na resposta do aluno. A dor de cabeça mais intensa. Melhor tomar um paracetamol de 700 ou um dipirona de uma grama? Voltou a focar na correção.
E esta dorzinha no osso do antebraço? Dorzinha na falange do indicador esquerdo! Dorzinha no osso da canela direita!
Levantou-se. Era preciso tomar um analgésico. Dirigiu-se ao quarto. Onde estaria os comprimidos? Na mesa de cabeceira, estaria no carro? E quando foi em direção à mesa de cabeceira, a voz vinda do espelho:
— Você não se avexa não, Carmília? — era a própria voz dela saindo do espelho do roupeiro.
Olhou para o espelho: olhos esbugalhados. Era ela refletida, porém com as mãos na cintura e em movimentos completamente diferentes do corpo físico dela.
E a Carmília do espelho:
— Não se espante não, Carmília. Eu sou seu alter ego.
A Carmília física feito estátua. Olhos esbugalhados. A outra, empertigada no espelho.
— Fique aí quietinha! Preeeeesteee aaaaateeeeenção no que vou lhe dizer. Por faaaaaaaaaavorrrrrrrr meeeee oooooouuuuuça! Tá me ouvindo?
— …
— Aliás, você é surda de você mesma, Carmília. Quantas vezes você não ouviu os conselhos de você mesma, quantas vezes você refletiu sobre o seu excesso de trabalho, sua absurda dedicação. Quantas e quantas vezes o seu corpo tem mandado recados para você se controlar dos seus excessos de trabalho. Essas dores, sua insônia. Seu corpo tem dado sinal para você, pedindo moderação, pedindo qualidade de vida. Mas o que você faz? Ignora e tome-lhe remédio tarja vermelha, tarja vermelha, tarja preta e mais tarja preta, e tarja verde. Cadê a qualidade de vida que você sempre sonha?
— …
— E agora está aí cheia de dores pelo corpo, tomando remédio de hipertensão, para se relaxar, para dores insanas. Toma! Bem-feito para você! Olha para mim, que sou você. Veja que cara de cansaço e carência. Envelhecemos muito, envelhecemos precocemente. Esta nossa falta de libido… este cansaço quando vamos para uma festa, um evento. Veja! Olha para mim, que sou você. Veja como você está estranha no espelho, Carmília. Culpa de quem? Do Governo? Dos alunos? Da direção do colégio? Não! A culpa é somente sua. Olha o rosto, nosso rosto. Há um semblante de pessoa doente em fase terminal e desesperançada. E estes olhos abespinhados? Viu?
— …
A Carmília física hirta em frente ao espelho.
— Sabe o que você deveria estar fazendo agora? Responda! Sabe o que você deveria estar fazendo agora? Sabe?
— …
— Você deveria estar na paralisação feito todos os seus colegas. Muitos estão lá na praça se preparando para a manifestação, lutando por melhor salário, pelo pagamento integral dos Precatórios, por melhores condições e benefícios para os nossos concursados. E você? Aqui! Concorda com o aumento de salário mixuruca que o Governo vai dar? Concorda com os valores dos precatórios? Com o descaso aos velhos e novos professores? Diga! Diga!
— Não.
— Não concorda e não foi para a rua lutar?
— Muita coisa para corrigir e também o…
— E se não tivesse paralisação, Carmília?
— Eu madrugaria. Usaria os sábados e domingos e…
— Quantas horas você trabalha pelo Estado pelo seu contrato? Só 40 horas! E quanto você trabalha aqui em casa com os fazeres pedagógicos? Umas 130 horas por semana. Você recebe hora extra do Estado? Claro que não. Seu contrato é de 40 horas. Então por que trabalhar esse tanto de horas de graça para o Estado? Você tem o dia da AC para corrigir e planejar tudo. Se não terminar no dia da AC fica para a próxima. O resultado das notas não é para bolsa de valores que se não inserir logo dará prejuízo ou lucro.
— Tanta coisa para corrigir, o prazo de uma semana só para fechar a unidade. Pressão da diretora, dos coordenadores e tem também a…
— A falta de amor a você mesma, a falta de amor à família, a falta e consciência de classe. E por falar em consciência de classe, você deveria era neste momento se juntar com seus colegas lá na rua para lutar. No entanto, você está aqui, masoquista de si mesma e colocando a culpa na pressão do Estado e da Escola. E sendo uma graaaaaaaaaaaaaannndeeeeeee analfabeta política.
— São os prazos. Tenho que dedicar meu tempo.
— Dedicar seu tempo e ser uma verdadeira analfabeta política e exploradora de si mesma! Você já pensou nisso, sua analfabeta política?
— …
— Se ame. Se valorize. Lutar é um ato de amor a você também. Tome consciência de classe. Vá na sala, arrume suas avaliações, deixe-as para corrigir no dia das ACs. Vá para a luta. Dá tempo ainda.
— Mas…
— Vou te dar um safanão para ver se seu cérebro e sua consciência política volta.
Plaft
***
Por volta das onze horas, o marido, depois de uma diligência concluída, resolveu passar em casa. Encontrou Carmília deitada no tapete do quarto. Estava desmaiada? Não, porque roncava. Caíra de sono.
— Carmília! Que negócio é esse de dormir aí no chão?
— Nem te conto! Nem te conto.
— Também pudera, foi dormir quase quatro horas da manhã com essas correções que não acabam mais.
— Amor, prepara alguma coisa aí para comer porque eu vou lá na manifestação. Você busca os meninos na escola.
—Há muito tempo que você não vai nem mais nas assembleias. O que deu em você para ir se manifestar agora?
— Um safanão, meu querido! Um safanão.
Vald Ribeiro
(vald@revistapalavras.com.br)
Obra de ficção
Este texto é fruto da imaginação do autor, não tendo qualquer relação com pessoas, lugares, acontecimentos ou situações reais. Qualquer semelhança é pura coincidência.