Carolina Maria de Jesus desfila no Carnaval do Rio de Janeiro

Foto: Sidney. Arquivo Público do Estado de São Paulo/Última Hora

Carolina Maria de Jesus desfilará na Marquês de Sapucaí na próxima segunda-feira pela Unidos da Tijuca, que dará vida, luz e narrativa à escritora, que nos deixou fisicamente em 13 de fevereiro de 1977. A escola brilhará na Sapucaí em meio a duas datas icônicas: três dias da data em que Carolina desencarnou e a 28 dias de seu nascimento, 14 de março.

Consta, nas notícias que vêm da Família Tijucana que a Escola eternizará na Avenida a Trajetória de Carolina desde a infância na pequena Sacramento em Minas Gerais, passando pelas diversas vivências da escritora em São Paulo até chegar ao interior paulista em Parelheiros — sua última pousada terrena.

 O samba-enredo  —  composto por Lico Monteiro, Samir Trindade, Leandro Thomaz, Marcelo Adnet, Marcelo Lepiane, Telmo Augusto, Gigi da Estiva e Juca  — será interpretado por Marquinhos Art’Samba, cuja voz vibrante,  expressiva e visceral certamente  empolgará os componentes da Unidos da Tijuca,  a arquibancada e  todo Brasil. Aliás, é impossível ouvir essa obra sem se empolgar por quatro motivos: a bela letra, a magnífica interpretação de Marquinhos Art’Samba,  a melodia que gruda em nosso cérebro e a homenagem a multifacetada autora de Quarto de Despejo. Outro elemento encantador é que, sem dúvida, este é um dos melhores sambas-enredos do ano.

Logo no início, entre arrepios de emoção, o samba   nos leva ao passado da escritora, na lembrança do avô que ensinou os mistérios da vida à futura multiartista da palavra. A emoção vai aflorando quando Marquinhos  canta:

“Olhe em mim eu tenho as marcas/Me impuseram sobreviver/Por ser livre nas palavras/Condenaram meu saber/Fui a caneta que não reproduziu/A sina da mulher preta no Brasil”

Verdade maior vem neste verso de diamante: “A palavra é arma contra a tirania”. Essa máxima ecoa neste  samba, ecoa nas obras de Carolina Maria de Jesus, ecoa em todas as manifestações artísticas que utilizam da palavra   como forma de protesto! Inclusive é a verdade que ecoa nos sambas em geral, como a grande força de resistência ao racismo estrutural, aos preconceitos e às opressões sociais, dos quais Carolina também foi vítima. A Azul e Amarela do Borel nos mostra na música a grandeza de Carolina, não como pessoas que a colocaram apenas como “favelada”, mas uma artista denunciante da pobreza e das injustiças, mulher guerreira e exemplo de vida   — ou como se diz hoje: empoderada. Mulher preta que, em palavras e corpo lutou e nos deixou seu rico legado, conforme o potente samba aponta: “Por tantas Marias que viram seus filhos crucificados/Nas linhas da vida, verbo na ferida, deixei meu legado”

Será maravilhoso assistir a esse legado levado à Sapucaí. Carolina presente nos carros alegóricos, nas fantasias, no samba potente — puxado pelo majestoso Mestre Casagrande  —, no canto de Marquinhos acompanhado pelo colossal coral dos componentes da Escola e da   arquibancada da Apoteose. Será mágico assistir a Carolina também presente nas fantasias e alegorias geniais nascidas do magnífico carnavalesco Edson Pereira!

Quem encenará a nossa diva na fase adulta será a atriz baiana Maria Gal — que também encarna a escritora no filme Quarto de Despejo, rodado este ano.  Soube também que quem interpretará a escritora na infância será a atriz Fernanda Dias, importante intelectual, mestra em Artes Cênicas e doutora pela UERJ.

Imagino Carolina retratada na avenida como entidade da nossa Literatura e etnia. Mulher preta empoderada, intelectual, independente (inclusive das masculinidades tóxicas), mulher que entre sofrimentos sociais e preconceitos foi rainha e encanto, escritora, poeta, compositora, dramaturga, cantora, mãe solo, estilista, grande observadora social, ser humano de amor, emoção e luz!

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 Estamos na doce expectativa para o desfile, que ocorrerá já na madrugada da terça-feira, visto que a Unidos da Tijuca será a última escola a desfilar na agenda do dia 16. Sim: madrugada!  Mas quem terá sono ao assistir, seja na Sapucaí ou pela televisão, aos encantos e narrativas dos sambas-enredos do Rio de Janeiro? Ainda mais sabendo que a Pavão do Borel vai homenagear Carolina Maria de Jesus… Ninguém!

Vald Ribeiro

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