Sexta-feira, 6 de Março de 2026

Entre o Pix e os ventos de Santa Ana

A impotência diante da hecatombe da razão

por Palavras!
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Entrei no automóvel de transporte por aplicativo com a certeza de que eu chegaria no horário marcado à dentista. Há uma paz meiga em mim e a doce felicidade  de que hoje não terá motorzinho no dente. A chuva de leve do lado de fora do carro; dentro uma música gospel inundava todo veículo num volume suficiente para que eu imergisse, submergisse na mensagem cristã.  Uma canção que estimulava alguém a esperar mais um pouco pelo milagre de Deus. O milagre pode demorar, demorar, mas vem. Fiquei pensando na aflição do sofredor e no milagre esperado. Abri o celular e fui para o aplicativo do jornal.

O motorista:

—Tá vendo? A chuva está engrossando. Daqui a pouco será de novo aquela calamidade que vimos ontem. A enxurrada forte puxando gente, moto, até carro.

— É mesmo — respondi contrariado porque motorista quebrou o meu silêncio e minha fruição no suplemento literário do jornal.

— A gente paga tanto imposto para a gente ficar vivenciando uma porcaria dessas!  Por que o prefeito, o governo o presidente não faz drenagem que presta nas rua? Se tivesse uma boa drenagem, canais grandes debaixo do asfalto a gente  não teríamos essa catástrofe de todos os dias de chuva.

E eu, tentando ser gentil:

— E nos lugares que tem drenagem, pode haver entupimentos por causa de lixos que jogam na rua. E isso…

— Mas isso é o de menos. Poderiam as autoridades fazer a limpeza dos bueiros, das galerias. Prá quê a gente paga tanto imposto?  Não é para isso?

— Pois é! E há…

— Eles só sabem inventar impostos. Agora até do Pix a gente vai ter que pagar imposto. Imagina um pobre pipoqueiro, um barraqueiro que aprendeu a se organizar no seu negocinho simples agora tem que pagar imposto sobre o Pix. Taxação em cima de taxação. Roubo em cima de roubo.

E eu, contrariando o meu protocolo de não discutir com um bolsonarista:

— Mas já foi provado que é fake news. A imprensa tem noticiado que é só um controle financeiro e …

— A imprensa? E você acha que esses canalha  da grande impressa vai falar a verdade? Tudo comprometido com esse velhaco que está na presidência.

O que fazer agora? Mais uma vez diante de um extremista? O extremista no controle do volante. Uma vez, num transporte como este, eu tive que mudar o rumo da conversa quando o motorista disse que ele estava no comando do volante. Ele me intimidava. A fala era sobre cultura marxista, eu negava existir, mas ele dizia que sim. Eu inventei críticas ao marxismo e disse que era coisa ruim mesmo, negando a minha ideologia. Tentativa urgente para me salvar, quem nuns momentos desses não teme uma violência vinda de um extremista? Voltei ao diálogo medonho:

— Na verdade, não tive tempo de ler…   — menti!  Eu tinha lido muito, eu sabia que fiscalização sobre o Pix já era feito pela Receita Federal com valores maiores de 2 mil reais. Agora é 5 mil. Então completei a mentira e concordei —   Mas é mesmo! É absurdo cobrar imposto de Pix. Para onde esse país vai?

— Eu que tenho outras transações financeiras já estou sentido com será difícil. Agora imagina o pipoqueiro, o vendedor de cachorro-quente, a gente que trabalha de aplicativo. Roubo! Terrível!

—Sem dúvida… terrível mesmo. Tem que se fazer alguma coisa. —  Meu coração a ponto de sair pela boca, cortisonas em ebulição dentro de mim.

—Sim. Sim! Impeachment já! — minha voz saiu arranhada do medo.

Estremeci. A chapa começava a esquentar. Como eu, um comunista contumaz, iria discordar de um bolsonarista se eu estava tão vulnerável no carro? Aproveitei que a chuva estava mais forte e falei:

— A chuva! Ficou mais forte agora. E veja como o…

— Você viu? Aqui a chuva forte e lá na Califórnia é o fogo.

Eu quis falar que a culpa dos incêndios de lá poderia ser das mudanças climáticas, da redução das verbas orçamentarias daquele estado ianque para combate de catástrofe.  Lembrei-me urgente que extremistas negam essas climáticas e são neoliberais. Ele foi ementando a discrepância informativa.

— É castigo lá? Pode ser. O tal vento de Santa Ana que está queimando tudo por lá. Fogo de Santa Ana! Tinha que ser coisa mundana.  Não diz que é santa? Que santa é esta que traz o fogo? E não a paz!

— …

Agora a coisa estava ficando grave mesmo para meu lado e para minha inteligência. Até um fenômeno atmosférico vindo de uma região chamada Santa Ana, agora transubstanciado  em uma figura mítica era a culpada pelos incêndios em Los Angeles? Que fake news tão bombástica era aquela? Como eu poderia redarguir naquele momento? Soltei, ingenuamente:

—Estão brincando com Santa Ana.

—Brincando com essa Ana não. Brincando com Deus. Santa! Se for a Santa…  pode ser a Santa mesmo fazendo pirraça.

Até que ponto chega a fantasia humana na crença das noticias falsas,   na crença e na afirmação do preconceito religioso? Indagava para mim mesmo.

E ele, depois de falar mais coisas impróprias das quais não prestei atenção.

— Mas eu vou e volto atrás. Trump já nas vésperas de tomar posse. Isso aí não passa de incêndio criminoso a mando do Biden Comunista para estragar a posse de Trump. Isso não passa de trapaça.

— …

— Aí já vai tentando estragar o começo da gestão de Trump.  Esses comunistas são demais. Por aqui tão levando o Brasil para o buraco porque voltaram para o poder. E agora lá nos Estados Unidos estão avacalhando a posse de Trump. Tem quem pode?

A pergunta retórica do motorista me atiçou a mesma pergunta: tem quem pode com as fakes news? Tem quem pode com pessoas como esta em minha frente? Mesmo com tantas informações, tantas campanhas advertindo sobre as falsas informações ainda tem gente vivendo no mundo da mentira. Agora a do Pix, desmentida pela imprensa… a do incêndio que não tem nada a ver com a abstrata Santa, mas com um fenômeno meteorológico!   O Pix… os ventos de Santa Ana… entre as informações falsas sobre o Pix e os Ventos de Santa Ana há uma mágica macabra ininteligível, há uma catástrofe sendo construída alimentando pessoas como esse motorista, como de milhares de pessoas no Brasil, no mundo. Tudo contribui para  uma hecatombe racional, da qual nós que não somos adeptos da mentira, nós que somos partidários da dúvida, como propulsor da busca da verdade,  não teremos força para combater.

Pedi ao motorista que parasse o carro num estacionamento ainda distante do consultório. Queria logo sair da hecatombe da razão.

Tales Peaquin

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