Vald Ribeiro

Mal terminei de ler o e-book A urdidura da matéria, da escritora maranhense Rute Ferreira, e já estou com saudades do livro e com aquela gostosa vontade de relê-lo. O livro é uma bela coleção de contos publicada no ano passado em formato digital, disponível para venda e locação na Amazon. São 12 contos em que a escritora — que já publicou cinco livros: dois romances e três coletâneas de contos — nos apresenta temas que têm a mulher como personagem central — muito bem construídos de forma a garantir a fruição literária. E essa fruição é um dos motivos da saudade que sinto de A urdidura da matéria.

No primeiro conto, senti-me representado pela personagem, uma menina que desejava ardentemente ao menos tocar em uma boneca de porcelana que a prima tinha. A boneca era o desejo, a grande utopia da menina. No conto, lembrei-me da minha utopia máxima de infância que era possuir os bonequinhos e as miniaturas de carros, casas, e cenários de trabalhos da Playmobil. E todas as vezes que eu ia a um supermercado com meus pais, eu me descolava deles e ia para a seção de brinquedos apreciar os bonecos. Desejava-os tanto, tanto que nem agora, passados décadas de vida adulta, eu ainda não sei descrever o tamanho daquele desejo que nunca foi realizado, mas esse conto traduziu meu sentimento. Vi também na menina a fiel representação da minha personalidade, já que ela não expressava para as pessoas próximas seu desejo secreto, assim como eu nunca o expressei, nem aos meus pais, nem aos meus amigos.
No conto que dá título ao livro, Rute começa in medias res, ou seja, pelo meio — tal qual Homero em a Odisséia . Habilmente, ela manipula o tempo a ponto de fazer com que o leitor se sinta imerso na história e viva os sentimentos que o conto transmite. Trata-se de Jorge um homem cheio de remorso e tristeza que acorda sozinho na sala porque não tinha coragem de dormir no quarto, nem na cama em que, até pouco tempo, Helena, a amada dormia com ele. Como uma câmera cinematográfica flanando pela cozinha, fico ciente do caos nesse ambiente. Caos que também reflete a vida de Jorge longe da amada, que luta pela vida em um CTI. Mas a panorâmica não se restringe a mostrar os objetos da cozinha: Rute me fez sentir o cheiro do vinho. O vinho com cheiro azul! E nessas sinestesias — e cinestesias! — é que estou percebendo que a escritora é poética e lírica também nessa coletânea. Como não sentir saudades de uma prosa com elementos líricos e poéticos em uma linguagem enxuta e fluida, como em A urdidura da matéria ?
Essa poeticidade não é novidade na prosa de Rute cujo estilo se constrói não só na boa escolha das palavras, mas no uso de outros artifícios da arte literária, como no conto Os jardins, que inicia o livro Eu te serviria meu coração com vinho branco, obra de estreia da autora. Neste belo conto, a geniosa escritora usa de um recurso magnifico: a aporia, comum na poética e nas boas narrativas. E aí reside a poeticidade do conto que narra a história de duas moças e de uma tia em um lugarejo inóspito e medonho, onde em algumas casas abrigam seres… Que seres? Homens estupradores? Pessoas com grave transtorno mental? Leprosos, como aqueles que vivia confinados durante a Idade Média? Garimpeiros solitários e violentos prontos a atacarem as mulheres que passassem pelos arredores das casas onde moravam? Zumbis? Lobos? Extraterrestres? A engenhosa Rute deixa para o leitor resolver esse enigma, tal qual o conto que dá título ao livro que terminei a leitura. A escritora tem essa mania deliciosa de pregar peças — de aporia — no leitor, como em Bordado em Ponto Corrente, romance em que Rute borda com linhas de gostoso realismo fantástico e de delicado lirismo uma história da qual existencialismo, amor, violência de gênero, solidão, hipocrisias, desejos, tradição e encantamentos populares, se alinham em uma história graciosa narrada pelas moiras.
Senti saudades da prostituta Dalila, do sétimo conto de A urdidura da matéria. Na verdade, senti uma saudade da mulher humana e sensível que é essa personagem; uma mulher que tem sonhos, que deseja ser feliz, que ama os familiares, ama o filhinho que traz no ventre. Senti também piedade, fui solidário a ela, dedicada profissional do sexo, em sua constante busca do dinheiro para garantir o sustento e realização de sonhos… E por falar em solidariedade: minha total solidariedade à Irmã Leda, personagem central do conto O jantar, uma moça que veio do interior para trabalhar na casa de um pastor — casa onde pecados e inocência marcam a vida dessa moça.
Emocionei-me, assustei-me, sorri, refleti, posicionei-me contra a violência simbólica sofrida por diversas personagens do livro; fui solidário diversas vezes durante a leitura desse belo livro — que não ficará estático na estante porque merece releituras. Pena que essa bela obra ainda não possa ocupar um espaço na estante física por ser e-book. Mas em breve o livro será lançado em formado impresso. E assim, ele que ocupa apenas espaço virtual, passará ocupar minha estante física — e de muitos brasileiros — num local acessível para releituras.
Aliás, a autora está em campanha de financiamento coletivo para a edição impressa de A urdidura da matéria no site Benfeitoria — especializado em financiamento coletivo. Quem participar desse projeto receberá exemplares desse livro, dentre outros brindes dos quais obras anteriores de Rute Ferreira e ingressos para os cursos de escrita criativa ministradas por ela.
Para participar do financiamento de A urdidura da matéria, você poderá acessar a página da Benfeitoria aqui.
Para conhecer melhor a Rute Ferreira:
Instagram: https://www.instagram.com/ruteferreiras_/
Página da escritora : https://ruteferreiras.substack.com/