Vald Ribeiro
O shopping movimentado. Esther desacelerou o passo, olhou de soslaio e plena de anelo para a loja de artigos sensuais. A fachada neon em rosa e lilás, o nome bem chamativo em branco: Sex Shop Gospel. A parede de vidro plotado em tons rosa, vermelho, branco e lilás: imagens abstratas circulares, pétalas vermelhas de rosa, corações vermelhos flutuando, uma ânfora branca sustentada pelo nada derramando um líquido cor de mel. Lá dentro da loja, as deliciosas matérias-primas de que precisava para a realização dos seus mais furtivos e travessos desejos.
Cadê a coragem de entrar e comprar logo brinquedinhos, cremes e tudo que ela e o marido pudessem usar sem pecado e sem a culpa de violar os dogmas da igreja evangélica? O shopping agora lotado. Quantas vezes tinha passado em frente à loja libidinosa nesta manhã? Umas duzentas? ─ Perguntou a si mesmo se censurado. Olhou o relógio: 12 horas e 46 minutos. Assustou-se: já se passaram duas horas! Duas horas perambulando pelo shopping, entrando e saindo de lojas sem comprar nada…
Continuou a andança ao léu. Queria ter a coragem da irmã, que não era evangélica e, por isso, usava e se lambuzava com os dispositivos sexuais mundanos! Bem que deveria ter chamado a irmã. Com o apoio dela, entraria corajosamente na loja. E o dia em que a irmã lhe conduziu coercitivamente para uma sex shop mundana? As duas andavam tranquilamente pela rua. Ela na maior inocência foi levada porta adentro da loja de eróticos pela irmã! Quando percebeu o ambiente impróprio para uma evangélica, se desvencilhou da mana e saiu lépida daquele espaço mundano.
Há anos que ela ficava refletindo sobre os conceitos e preceitos do sexo e da religião. Até que ponto a criatividade e o uso de complementos eróticos seriam contra os princípios cristãos? Onde na Bíblia estão os versículos proibindo esses brinquedinhos? Ainda mais que ela estaria fazendo prazeres com o próprio marido! E depois… se Deus criou o homem e a mulher dotados dos poderes mágicos do sexo… os poderes mágicos do sexo! Por que evitá-los?
Respirou fundo, volveu-se e partiu a passos lentos para a sex shop gospel. Respirou fundo mais uma vez e, carregando ainda na alma uma indelével timidez de cristã casta e fiel aos preceitos divinos, foi abrindo a porta.
─ Seja bem-vinda ao caminho do prazer sem tabu ─ saudou uma atendente vestida em vermelho carmim.
Esther sentiu-se deslocada por causa da ausência da saudação evangélica. Também não pegava bem a atendente ir logo dizendo “a paz do Senhor, irmã”, ainda mais numa loja dessas!
─ Amém! Digo, obrigada!
─ Eu vi uma notícia num site e…
─ Ah que ótimo. Sou Rafaela. E você?
─ Esther!
─ Esther! Parabéns por entrar aqui! Sinta-se toooooootaaaaaaaalmeeeeente à vontaade. Você é evangélica?
─ Sim.
─ Ah, que benção! Nós evangélicas temos neuroses de achar que não temos direito aos prazeres supremos da carne. Puro tabu! Qual a passagem na Bíblia em que há condenação ao sexo do casal? Os Cantares de Salomão que o diga! ─ a moça apontou um cartaz em tons rosa, branco e roxo com um versículo do livro erótico da Bíblia: “…O amor e a paixão explodem em chamas e queimam como fogo furioso. Nenhuma quantidade de água pode apagar o amor, e nenhum rio pode afogá-lo…”
Esther sorriu animada. Com a sutileza de um lince à espreita da caça e, mais apressada que a vendedora, Esther foi até uma estante em formato de maçã cheia de guloseimas eróticas.
Vald Ribeiro
(vald@revistapalavras.com.br)
Aviso legal:
Esta é uma obra de ficção. Os nomes, personagens, lugares e eventos apresentados são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com a realidade é meramente coincidente