Por Iasmin Araujo
Outubro de 2026, um mês de um ano que jamais imaginaria que fosse histórico e servisse de conteúdo para os livros de História. Quatro anos atrás, em meio a tantas notícias assustadoras, que ameaçavam a liberdade e a segurança de classes marginalizadas e das pessoas que saíam e ainda saem às ruas para defendê-las, lá estava eu em meu primeiro semestre da graduação em Jornalismo. Havia uma empolgação e um medo de usar a farda do curso com letras elegantes e audaciosas. A era da pós-verdade era algo novo para mim e a lavagem cerebral política parecia, para mim, apenas um caso clássico de persuasão; sair de casa e conhecer pessoas novas depois que ficar dois anos em casa e o ato de votar pela primeira vez também eram novidades que deixavam um frio na barriga.
Lá estava eu com minha mente aberta, porém ainda muito limitada. Havia muito o que aprender e uma mocinha assustada como eu sabia o que queria, mas o medo ao ver os defensores da imprensa livre serem agredidos me impediram de manifestar a certeza que eu tinha com base nos livros de História: ditadura nunca mais! Assim, nessa mistura de sentimentos, eu fui depositar meu primeiro voto como eleitora em 2022. Uma felicidade, um orgulho de ter um direito desses como cidadã; a sensação embriagante de mudar o mundo ao apertar o botão verde de confirma no primeiro e no segundo turno daquele ano; a alegria inenarrável de ver a apuração de votos e pensar algo como “eu ajudei nisso!”.
Pergunto-me o que aquela universitária acanhada diria ao descobrir o quanto esse medo virou uma empolgação e uma vontade de ir às ruas e defender aquilo que eu acredito. Eu ainda não sei de tudo, mas sei de minhas convicções e o mês de outubro de 2026 tornou-se um grande energético para isso. Novamente encontramo-nos em um momento delicado no qual tantos direitos podem ser atacados futuramente a depender da apuração dos votos. Outra vez a imprensa está sendo colocada contra a parede, divergindo opiniões e polarizando ainda mais o que deveria ser diversificado. Agora, já formada, me vejo na obrigação de honrar minha profissão e deixar aquele medo juvenil de lado. E o fiz, ainda que aos poucos.
Hoje, especificamente hoje, dia 15 de outubro de 2026, Dia dos Professores, eu tenho um orgulho de mim mesma por documentar a movimentação para lembrar as pessoas de que liberdade, democracia e dignidade à classe trabalhadora e a todos os seres humanos historicamente marginalizados são valores que deveriam ser defendidos não apenas pela esquerda, mas por todos aqueles que querem um espaço para opinar, para votar e para viver. Entre fotografias, gritos de luta e aplausos, sob o sol de uma primavera climática, à espera da primavera política e eufórica, lá estava eu, dando para aquela universitária de 2022 a audácia que estava escondida por trás de uma máscara e um medo de aglomeração e da própria oposição.
Faltando 10 dias para o segundo turno das eleições presidenciais de 2026, eu tenho medo, claro. As porcentagens podem não ser exatas, mas representam algo. O que acontecerá durante a apuração dos votos no dia 25 de outubro será um grande mistério, e vem em minha mente todos os pensamentos de “será que fiz minha parte?”, “será que fiz o suficiente?”. Não sei, mas gosto de pensar agora e, com certeza, é uma noção atemporal, que todo voto importa, afinal, o que é necessário para uma pessoa ser eleita é 50% dos votos totais somados com uma unidade de voto válido para esta.
No dia em que escrevo isto tenho a mesma sensação que tive votei pela primeira vez. Sensação essa se fez presente quando saí de casa sem medo para votar este ano, quando peguei meu certificado de conclusão da graduação por uma universidade pública ainda no começo deste mês e quando levantei a mão e gritei a favor da classe trabalhadora e de outras minorias sociais hoje. Outubro, de fato, é um mês interessante e peculiar. Há uma poesia nisso, eu acho; talvez porque essas experiências não sejam tão individuais como achamos que são.
15 de outubro, 2026