Pouco mais das 19 horas. Dia dos Namorados. Esquina mais movimentada perto do terminal de ônibus. A aglomeração de pessoas se deliciando do churrasquinho de gato* do seu Clodoaldo. Pessoas ─ em fisionomias quebrantadas e corpos fatigados pelo expediente de trabalho passam compenetradas em direção ao terminal.
Umas seis ou sete pessoas já se deliciam do churrasquinho vendido por seu Clodoaldo; umas em pé, outras sentadas em cadeiras de plástico em volta de banquetas de madeira simulando uma mesinha. Sentados, um casal de namorados espera, tranquilos, os espetinhos que ainda estão assando na churrasqueira improvisada no carrinho esquisito de zinco, eles bebem cerveja. O casal se colou num beijo travesso: línguas frias sabor cerveja. Tem forma melhor que essa para passar o tempo enquanto esperava os espetinhos?
Ainda estavam de mãos dadas depois do beijo, quando uma moça vestida de vermelho, ao estilo clássico de Cinderela, e com uma cestinha ornamentada de rendados carmim e branco quase cheia de rosas vermelhas, se aproximou do casal.
─ Boooaaaaa noiiiiiiiteeeeee, lindo casal! Que o amor lhe seja eterno!
─ Muito obrigado ─ respondeu o casal, quase em perfeita sincronia.
E a vendedora de rosas:
─ Que data linda para vocês hoje! ─ A voz da vendedora cheia de ternura, agora olhando para o rapaz: ─ Que tal você dedicar uma dessas rosas para sua amada? Custa apenas dez reais. E tem esse cartãozinho dourado para que você…
─ Muito obrigado, moça, mas nós não comemoramos o Dia dos Namorados, não. ─ contrapôs a moça do casal.
─ Ah! Mas é uma data tão linda… claro que todos os dias deve ser Dia dos Namorados… mas hoje é uma…
─ Data comercial ─ apressou o rapaz em voz calma para desarticular o pensamento da vendedora.
E a vendedora ─ com toda a ternura do mundo estampada no olhar ─ para o casal:
─ Sim, mas é um bom momento para reacender as chamas do amor, para fazer um carinho mais especiaaaal!
─ Cê sabia quem foi que criou essa data de hoje? E por que foi criada? ─ Perguntou a moça enamorada, uma exímia marxista e estudante de História.
─ Não. Na verdade, não faço a mínima ideia.
E o rapaz:
─ Foi o pai de João Dória.
─ Nossa! O João Dória, aquele governador detestável que governou São Paulo até o ano retrasado?
─ Sim ─ disse a namorada do rapaz.
─ Meu Deus do céu! Eu que odiei tanto o João Dória ─ exclama a vendedora franzindo a testa.
E a namorada:
─ Pois é, moça! E nem é só por ter sido o pai do Dória o autor da data. É pela origem capitalista desse dia. Foi assim: tinha aqui em São Paulo, na década de quarenta e cinquenta, uma grande loja de departamento que sempre passava por apertos financeiros pelas poucas vendagens no mês de junho, assim como quase todas as lojas nos meados do ano. Aí o dono dessa grande loja contratou a agência de publicidade do pai do Dória para criar uma campanha publicitária visando aquecer as vendas. E como aqui no Brasil já tinha a data do dia 13 de junho, que é o dia de Santo Antônio, que é considerado o santo casamenteiro, o pai do Dória uniu o útil ao agradável e criou o Dia dos Namorados como estratégia de vendas. Aí, como a campanha foi um sucesso, nos anos seguintes os lojistas de São Paulo e do restante do Brasil foi aderindo à campanha.
E a moça das rosas:
─ Meu Deus! Estou chocada! Que cara experto! Então quer dizer que todos nós que comemoramos o Dia dos Namorados, que trocamos presentes estamos sendo mais uma vítima da esperteza dos donos de lojas?
─ Sim! E do capitalismo ─ respondeu o casal em sincronia.
─ E eu me ralando para comprar um presentinho para meu noivo hoje. Pedi até um adiantamento do meu salário para comprar algo nesta noite ainda para meu amado, caso eu encontre alguma loja aberta. Estou chocada, choocaaadaaa!
─ Pois é moça. Essa é a triste verdade sobre o Dia dos Namorados ─ respondeu a namorada, cheia de júbilo.
─ Nem vou oferecer mais as flores para vocês comprarem… já que pelo visto vocês não curtem esta data.
O namorado pensou em comprar uma das rosas para a amada, como simples forma de ajudar a vendedora. Perguntou à delicada vendedora:
─ Você está vendendo para você mesma?
─ Não! Para meus patrões. O pior que nem comissão eu terei sobre essas vendas. E nem pagamento de hora extra, imagine!
Os dois compadecidos com a situação da jovem vendedora vítima da exploração do trabalho. Mas, para que comprar a rosa se era apenas para manter a ganância financeira de um burguês enquanto a vendedora era apenas mais uma vítima da exploração do trabalho?
A vendedora partiu em direção a um dos homens que esperava o semáforo fechar, na tentativa de vender o souvenir romântico fruto da exploração capitalista.
Vald Ribeiro
(vald@revistapalavras.com.br)
*Churrasquinho de gato é uma expressão popular usada para designar os espetinhos de carne bovina, suína e de frango vendidos por ambulantes, geralmente em espaços urbanos improvisados.