Quantas vezes me descubro dando murros em ponta de faca e abraçando tantas causas que me são caras, que quase não consigo me carregar. Vou e volto, pois sei que não sou necessária e que não tenho nada a oferecer. Apesar disso insisto.
“Não vejo vantagens de caminhar com você”, foi o que ouvi certa vez de outras mulheres. Foi bom. Como cicatriz me lembra diariamente a dimensão da realidade, do que não podemos alcançar e tocar, que o mundo continua a ser marcado pela lógica da vantagem e do lucro, e que parece só ser possível viver em estado de competição, todos contra todos. Como a gente faz pra desacreditar dessa lorota? Como a gente faz para desativar o “modo de defesa” que nos torna impermeáveis à dor do outro, só porque também sofremos? É isso que se chama de dessensibilização? Prefiro andar de peito aberto, mesmo que a qualquer momento possa sucumbir de insensatez.
Ver o outro como rival é um condicionamento social muito poderoso e eficaz. Mantém a gente lutando uns contra os outros e não contra nossos verdadeiros inimigos, aqueles que têm prazer em nossa desumanização e eliminação. É uma lógica perversa contra a qual sempre me coloquei a duras penas, afirmando minha estranheza, e o sentimento constante de ser estrangeira, incapaz de aprender a língua local e dizer “Amém!”.
Falo sozinha. escrevo para ninguém ler. Ainda assim escrevo. É a primeira forma que tenho para afirmar o “não”, o meu “não” que é a mais potente afirmação da vida, é o meu “sim”. A minha recusa é o sinal de que sei que ainda estou viva e finjo que ainda posso escolher, finjo e teimo em acreditar e sentir.
Parece ser mais fácil andar em rebanho, a melhor forma de encobrir a solidão e não pensar por si mesmo. Fazer e falar o que todos fazem e falam, diluir-se na multidão, buscar e querer líderes. De repente todas as pessoas estão tão iguais, mesmo corpo, mesma voz, mesmos gostos. É como se o mundo fosse constituído de réplicas patéticas e tristes de modelos impossíveis. Essa é uma sensação apenas aparente e ilusória, pois a cada dia somos confrontados com a descoberta de que, na verdade, somos maravilhosamente diferentes uns dos outros, umas das outras. Talvez essa seja a maior beleza aleatória da vida, a riqueza da diversidade. Nenhum tipo de mutilação será capaz de apagar essa característica humana.
Há tantas formas de ser e a gente vai descobrindo que é preciso despatologizar a vida e o envelhecer. Além da certeza da morte não há remédio para vivê-lo, mas a morte é apenas o outro lado da lua, e não sua negação, já que até a morte é recomeço de algo que não sabemos. Voltar ao estado de partícula, de resíduo. compor outras matérias. Nego Bispo nos lembra que o ciclo é “começo, meio e recomeço”. Continuar “apesar de” passa pela busca de adiar o quanto for possível esse momento da “passagem”, para nos dar mais chances de aproveitar o percurso. Então amar a vida, querer a vida com todas as suas contradições é como estar aberto a toda literatura, a todas as possibilidades de histórias. Escrever também é isso, é inventar.
Tenho muitas dúvidas e muitos medos. Algumas coragens também me atravessam, como querer aprender. Por exemplo, uma palavra se tornou muito bonita nos últimos meses para mim, a palavra confluência. Me seduz a ideia de que a gente não se dissolve ao encontrar o outro, mas permanece e caminha junto e mais forte. (Olha eu aqui de novo teimando em viver). Descobrir uma nova palavra é renovar a vida.
Não consigo parar de tentar conversar e me encontrar com outras pessoas (eu que sempre fui tão solitária). Quem sabe a gente rompe os silêncios juntos e juntas. Quem sabe a gente descobre como é bom sermos inúteis, sem medo dos carimbos, sem medo das redundâncias e dos erros gramaticais. Quem sabe nossa palavra e nosso caminhar consigam criar outros mundos mais solidários e justos. Quem sabe, quem sabe.
Interrompo a forma desse texto que nem sei o que é para agradecer. Sou uma leitora que agradece a autores e autoras cujas obras mexem muito comigo. Então, Obrigada, Audre Lorde, por ter te conhecido. A gente só trocou algumas palavras e me reconheci em tantas situações. Outro dia a gente conversa sobre “Irmã Outsider” (Autêntica, 2021). Por ora deixo esse registro, que não é uma resenha do seu livro que estou lendo devagar, como quem escuta uma amiga, uma irmã, mas um exercício de fala enquanto caminho.
Juliana Brito
Patagônia, Vitória da Conquista/Ba em 06/03/24