Hoje foi enterrado um membro de todas as famílias brasileiras. Um parente íntimo, sem dúvida, que nos visitava todos os domingos. Poucos parentes, desses que aparecem nos finais de semana, reteve tanta atenção dos familiares quanto Silvio Santos. Poucos trouxeram risos e fantasias no dia de domingo quanto ele. De tantos familiares que vêm em nossa casa, muitos legais, outros nem tantos, Silvio foi o ente que mais chamou atenção, o que talvez tenha trazido mais risos, o que esteve presente mais vezes em nossas casas e por muitas horas, o que mais perdurou por gerações e gerações nos ambientes familiares.
Silvio Santos, ao menos no domingo, fez muita gente esquecer a dureza da vida, a inflação, uma dor lancinante, a saudade de alguém, os dissabores da existência, a hora de almoço sem a comida digna no lar pobre. Ele trouxe o sorriso que essas pessoas precisavam, trouxe a música, a alegria, a esperança e o lenitivo. E no lar de classe média ou burguesa, ele serviu também de refúgio e entretenimento.
Alguém há de falar que Silvio Santos era apenas um produto da grande indústria da cultura de massa, que foi mais um elemento alienante da sociedade, e foi. Mas certamente reconhecerão que ele foi diferente, inclusive foi humano, naturalmente humano: manteve a humildade dos tempos de pobreza, tratou a todos sem indiferença e mostrou que não tinha a arrogância da infalibilidade que muitos apresentadores aparentam. Basta ver as gafes, as quedas os pequenos incidentes no palco, a fuga do script de perfeição, a ponto de se mostrar naturalmente humano em frente às câmeras. Em tudo ele demonstrou que na TV, ou no rádio, atrás do microfone ele era naturalmente humano.
As histórias de acolhimento a muitas pessoas que o procuraram para pedir emprego, seja como operário ou artista, a cordialidade como ele tratava seus funcionários independentes da função nas empresas dele, o carinho que ele demostrava à família, os elogios e os conselhos aos artistas são provas irrefutáveis da genuína humanidade que o caracterizava.
No fundo, no fundo o que vai ficar na memória afetiva nos lares brasileiros é de uma pessoa íntima que todos os domingos vinha em nosso lar trazer alegria e uma filosofia de vida que se evidenciava na abertura do programa: “Do mundo não se leva nada” e a senha para se viver melhor: “Vamos sorrir e cantar”. Um lembrete de que o importante é viver cada dia intensamente, com sorrisos.
Tales Peanquim