Manhã de vento e sol. Armísio entrou no quarto, subiu cuidadosamente na cama, alcançou o topo do guarda-roupa. Lá estava a enorme pipa vermelha e amarela. Pegou-a com o mesmo cuidado e o carinho de quem pega um raro vaso chinês.
Desceu com cuidado. Calmamente, desenrolou a rabiola envolta na pipa. Examinou a chaveira: estava tudo em ordem!
No quintal, ele subiu lento e sutil pela velha e carcomida escada de madeira encostada na parede anos atrás. Não tinha mais a mesma destreza nem a mesma coragem de quando tinha dez anos de idade, nem a mesma agilidade dos 15 anos.
O tempo pesava sobre seu velho esqueleto de 86 anos de idade. Com uma certa dificuldade, atingiu o teto de laje.
Na laje, verificou a posição do vento, examinou de novo a chaveira e pôs a pipa para voar.
A pipa voando, voando, voando alto. Ele foi dando linha, dando linha, dando linha. A pipa agora era apenas um pequeno e tremulante ponto colorido no céu. Seu Armísio sorria para o vento.
Vald Ribeiro