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“Por que os homens fazem guerra, se não é para dar carniça aos corvos?” crônica de Lima Barreto publicada no dia 1º de maio de  1920

Palavras!
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Fala o corvo

Então o Corvo me disse:

Não sei para que os homens hoje fazem guerra. Antigamente, nós sabíamos perfeitamente que era em nosso proveito. Eles se batiam, feriam-se, matavam-se. Uns iam-se para um lado; outros, para outro. No campo, ficavam uma porção de cadáveres insepultos e era então um festim. Não há como a carniça humana, para nos dar um imenso prazer ao paladar. O sabor dela não é igual ao das outras. Difere muito e muito; e não está na inteligência dos corvos e dos seus meios de expressão, dizer em que consiste a diferença e definir-lhe o sabor.

 Um nosso sábio já tinha procurado reduzir o sabor a número, para poder dar uma representação capaz dos prazeres do paladar. Mas não conseguiu; entretanto, um outro tinha organizado uma teoria da guerra que é cheia de justeza e profundeza.

“A guerra, diz ele, é uma atividade, ditada pelas forças ocultas da natureza, a fim de proporcionar aos corvos prazeres superfinos do paladar. A marcha obscura das coisas dita à atividade inconsciente dos animais inferiores, denominados homens, esse choque entre grandes rebanhos deles, do qual resulta a morte de milhares, a fim de que, por intermédio de um gozo mais requintado do paladar, os corvos se aperfeiçoem em inteligência. Não fosse a guerra entre os homens, os corvos, sempre alimentados por carniças inferiores, não teriam chegado ao prodígio de olfato e vista a que chegaram. A sua sociabilidade superior, donde lhes vem uma mais segura descoberta de carniças, nasceu dessa alimentação privilegiada que a guerra entre os homens lhes fornece. O seu vôo seguro, alto, planado, cada vez mais perfeito, também nasceu daí. A guerra entre os homens fez o progresso da raça solar dos corvos.” O nosso sábio assim se exprimiu sobre a guerra: e a sua teoria estava assente nas nossas escolas e sociedade sábias de tal modo que ninguém seria capaz de atrever-se a contestá-la, a menos que quisesse receber os piores tratamentos possíveis, e as injúrias mais desagradáveis.

Eu não tenho cem anos, mas a minha idade é longa; entretanto, até hoje, ao que me lembre, nunca ouvi alguém contestar a teoria do nosso velho sábio, sobre a guerra entre os homens. Veio, porém, esta última guerra; e, se a teoria não foi desmentida, foi anulada. Os homens se bateram furiosamente e furiosamente se mataram; mas, quando íamos aproveitar as carniças, lá apareciam uns “passarões”238 enormes, sem bico, sem penas, sem olhos, a despejar tiros e pelouros239 uns contra os outros. Fugíamos aos bandos e púnhamos a espreitar se iam cair na carniça dos abandonados nos campos de batalha. Mas nada. Uns voltavam para trás, outros caíam; e nós não nos animávamos a avançar. Demais, descobrimos que nos tais “passarões” havia homens também; e, agora, o problema, a questão mais transcendentes que obumbra a sagacidade de nossos sábios é saber: “Porque os homens fazem guerra, se não é para dar carniça aos corvos?”

E o corvo não disse mais nada.

Lima Barreto

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