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A nova subjetividade

A nossa dificuldade de relação nos obriga a construir uma redoma e criar uma simulação de potência. Por isso, esse delírio de postagens.

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Josué Brito Santana

Hoje observei um adolescente na academia e vi que era novato, porém tinha muita pressa de perder peso. Pensei que talvez ele venha sofrendo com comentários sobre a gordura e deve sofrer bullying na escola. Lembrei-me, imediatamente, do Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa e da sociedade dos heróis, das pessoas que se dão bem em tudo, que não sofrem os perigos de não pertencer, nem são fracassados. Pensei no comportamento que venho observando na internet, inclusive, a palavra nova, que nem é tão nova, mas que descreve um apodrecimento do cérebro: Brain Rot , de uma mente tragada pela superficialidade. Por isso, preciso falar de sucesso, espelho, supernasciso, ostentação, delírio de postagens, como também de inveja, baixa autoestima e incapacidade de lidar com o sofrimento. São muitas hipóteses para se ter um cérebro podre, mas darei minha modesta opinião, tentando descrever um comportamento que venho observando na internet: o delírio de postagens e desejo de likes como sinônimo de sucesso. Com o avanço da tecnologia da comunicação, o celular tornou-se a principal ferramenta e as imagens oferecidas criaram um perfil, uma nova subjetividade, um novo ser. A multidão de opções a um click forma o nosso pensamento, sentimento e ações. Aos poucos, fomos perdendo a capacidade de conviver, de ter autonomia, de pensar e de criar realidade. Num mundo em que o encontro é virtual, tocar e sentir o calor humano são coisas do passado. Mas não é só isso, o espelho da tela nos engoliu e criou um modelo perfeito de ser humano, um avatar megalomaníaco fascinado pelo sucesso, que curte somente o que satisfaz o seu ego, que dissemina as mínimas coisas de sua vida como se vivesse num transe eterno e num gozo absoluto de sua vida perfeita. Esse novo ser deseja causar boa impressão, para ter algum valor e não ter que lidar com os seus dilemas.  O valor da vida termina por ser a exposição do próprio eu, dos seus bíceps e glúteos. No desejo de lacração todos os esforços giram em torno do close da própria imagem e não existe nenhuma causa que não seja a promoção de si. Talvez, esse seja o apodrecimento do cérebro que tento explicar, uma espécie de centralidade da superfície do eu. As crianças e jovens, muitas vezes, são os grupos que mais sofrem porque  estão em desenvolvimento tendo que sobreviver com a pressão de parecerem algo, de terem sucesso e por isso apostam em atalhos, sem condições de análise dos riscos, sem condições de produção do próprio discurso. Há pesquisas, inclusive, que apontam o risco de surtos psicóticos futuros devido ao uso excessivo do celular, sendo que a depressão e ansiedade já aparecem como doenças relacionadas e tudo porque curtem demais uma vida glamourosa dos outros e se sentem inferiores com a sua vida medíocre e chata ao mesmo tempo conseguem viver avatares em jogos e em sites de criação de conteúdo duvidosos que prometem o sonhado sucesso. Muitos adolescentes confessam ter dificuldade com a própria imagem, dificuldade de interação social e familiar, dificuldade de expressão dos próprios sentimentos, dificuldade de concentração, dificuldade de falar sobre o futuro, dificuldade nos estudos e dificuldades de sofrer frustrações. As referências são sempre de coachs e influencers digitais que “ensinam” o atalho como caminho. Há um culto à felicidade e à negação do sofrimento, por isso, o desprezo ao estudo, ao conhecimento. O cérebro é um músculo e se não for exercitado corretamente se atrofia e apodrece na superficialidade. A nossa dificuldade de relação nos obriga a construir uma redoma e criar uma simulação de potência. Por isso, esse delírio de postagens. De onde vem tudo isso? De uma cultura de sucesso sem esforço, de uma sociabilidade envenenada, alimentada pela inveja. O risco disso tudo? De nos tornar supernascisos e hedonistas, pela incapacidade de olhar para os lados, pela incapacidade de pensar nos problemas das minorias. Que sujeito é esse que só existe se postar? É preciso parar um pouco e questionar se precisamos de tudo isso. É preciso escutar o coração e saber o que realmente nos importa, de onde vimos, onde estamos pisando, o que deixaremos de concreto. Finalmente, aprender a viver o tempo presente fora dos storys. Em tempos de hiper conectividade sair da rede parece ser um ato revolucionário. O garoto da academia certamente que corre atrás de saúde, mas nos convenceram que primeiro é preciso aparecer bem na foto. (Dezembro/24) Josué Brito Santana é Professor e Psicólogo

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