5 de maio: Natal de Karl Marx

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Os preparativos para o Natal de Karl Marx começaram 10 dias antes deste 5 de maio. Então, Ana e Vladimir, com a ajuda dos dois filhinhos — a menina, cinco anos; o menino, dois — começaram a preparar a casa para a festa natalina Marxista. Não, não é uma paródia de Natal Cristão, nem uma festa religiosa porque Marx não é uma divindade, nem profeta — embora tenha previsto a globalização, o capital financeiro e as sucessivas crises do capitalismo!

O pinheirinho — que a avó materna, afeita ao cristianismo católico, presenteara os netinhos há três anos — foi cuidadosamente armada perto da porta da varanda. Os pais e os filhos dependuraram nos galhos estrelas vermelhas de diversos tamanhos, delicados pingentes com o símbolo do comunismo e do anarquismo e, para aumentar a beleza da árvore temporã, dependuraram também bolinhas natalinas vermelhas e estrelas luminosas em amarelo.

 Na mesa de centro, entre sofás e poltronas um “presépio” —, Ana e Vladimir sempre que referiam ao presépio, pronunciavam a palavra fazendo com os dedos o gesto das aspas ou dizia simplesmente “presépio entre aspas” para distinguir da simbologia cristã. 

Bonecos e bonecas, recortados de papel cartão representando proletáries foram dispostos em semicírculo. No centro do semicírculo estava uma miniatura de berço com um bebezinho minúsculo de plástico representando o Marx Menino. Do teto, pendia uma estrela vermelha, amarrada em nylon que simulava a Estrela de Belém. Uma bela estrela de cinco pontas, como é obviamente a simbologia: cada ponta representando os cinco continentes unidos pelo comunismo, também cada ponta representava os cinco grupos sociais essenciais para formação da nova sociedade: operários, camponeses, juventude, exército revolucionário e intelectuais.

Nas portas dos três quartos, guirlandas de rosas vermelhas simbolizavam o Socialismo e Rosa Luxemburgo. Sim, é Natal — marxista — na casa da jovem família! Os filhos extasiados e cheios de ternura admirando a paisagem natalina exótica. Os pais mais embevecidos ainda que os filhos, ao vê-los tão entusiasmado com a brincadeira de comemoração ao aniversário de Marx. Os pais, grávidos de felicidades, pela adaptação da festa cristã para o dia do aniversário do artífice do Materialismo Dialético e do Comunismo! Vale a pena o esforço da adaptação? Vale! Era a arte de educar os filhos para serem adultos revolucionários, humanistas prontos para a práxis marxista. E as crianças já davam sinais da práxis e desses valores. Dava gosto vê-las assim! 

—  Viva Marx!   —  Gritou empolgada a filha, quando viu a mãe colar na parede a figura de um imenso Papai Noel com cara de Marx.

E o irmãozinho, com dedo em riste, mas em voz de ternura:

—  Papai Noel, Rosa Alexandra!

—  Papai Marx, Antônio! — corrigiu a irmã, em voz de ternura.

E a mãe:

—  Ou Papai Marx Noel. Não é mesmo, filhões?

Vladimir, que ornamentava a mesa com guloseimas, riu. E ria sempre, ria de felicidade e de orgulho junto com a esposa porque inventaram há quatro anos uma forma divertida e utópica de educar os filhos nos valores humanistas para um  mundo melhor e comunista.

Mesa pronta. Guloseimas doces e salgadas, frutas vermelhas dispostas na mesa à espera do imenso pão que o pai de Vladimir iria trazer. Pão?  Pão aclamado pelos revolucionários de 1917 na Rússia. Pão? Jesus, em Seu gesto comunista, também repartiu o pão…

Do aparelho de som, vinha em tons alegres o Hino da Internacional Socialista, também o Hino do Partido Comunista Brasileiro, em meio a  outras músicas de bom senso e revolução.

GRAVURA: GERADA POR IA

Por volta das 20 horas, o avô paterno chegou pleno de felicidade, revolução e subversão — subversão que vinha  dos tempos de movimento estudantil, do tempo das pichações em muros dos asfaltos das cidades, do tempo em que participara do sindicato e de comandos de greves. Trouxe consigo o imenso pão para que fosse colocado no centro da mesa entre as guloseimas.

Afável, o bom avô trouxe quatro bonés vermelhos com frases revolucionárias, dois em tamanhos ideais para as crianças que, tal quais os pais, trataram de colocar os belos adereços na cabeça.

Às vinte e duas horas, as crianças, fartas de brincadeiras, davam sinais de cansaço e  sono. Não dava para esperar a meia-noite. Então era hora de repartir o pão. E o patriarca revolucionário, numa disposição de adolescente comunista, bradou com alegria e ternura, em frente à mesa:

— Quem é que faz aniversário hoooojeeee? Quem ééééééé?

E as crianças empolgadas, em coro:

— Kaaaaarrl Maaaaarxxxx!  Karl Marx! Karl Marx! Karl Marx!

 Os adultos também acompanharam o coro:

E o velho revolucionário, inclinando-se para as crianças:

— Quem sabe quantos anos Karl Marx faria hoje?

Duuuuzentos e vinte e seeeeteeeeeee! —  Respondeu, Rosa.  E Antônio seguiu a resposta da irmã.

E o veterano revolucionário:

— Mas que netinhos inteligentes e revolucionários eeeeuuu tenhooooooooo! Pois é, meus camaradinhas. Estamos reunidos para lembrar do homem que imaginou um mundo melhor, um homem que nos une hoje e sempre para permanecermos  na utopia, no sonho  e na  busca de um mundo melhor, um mundo de iguais, toooodo muuuuundo iiiiiiguuuuuuaaaal.  E nós somos o quê? Re-vo-lu-cio-náááááá-riiiiiiiiooooooooos!

E os pais e filhos:

Eeeeeeeeeeeehhhhhhh!

 

Vald Ribeiro

 

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos são produtos da imaginação do autor e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

 

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