É impossível amar o deprimido no modelo atual de sociedade

Arte conceitual gerada via IA (Gemini) a partir do texto de Josué Brito Santana

Temos um mundo frenético, veloz e sedutor, retroalimentado pela propaganda, que convence quase todos de que é possível ser feliz; basta uma vida incrível: um corpo perfeito, uma viagem dos sonhos, uma conta bancária recheada, um carro novo, uma casa luxuosa, muitos seguidores. De um lado, liberdade e sucesso; de outro, prazer imediato a qualquer custo. Um novo estilo de vida, um novo homem, sem laços, transformam-se em projeto de vida, em símbolo de sucesso.

Enquanto isso, incertezas, frustrações, desamparos, assédios, intolerâncias, preconceitos, exclusões, julgamentos, bullying, constrangimentos, silenciamentos, relações envenenadas etc. atravessam o sujeito, gerando cansaço, desesperança e isolamento.

Adoece-se mentalmente porque, infelizmente, é impossível suportar permanentemente uma performance de vencedor. Adoece-se porque temos histórias negligenciadas. Adoece-se porque vivemos muitas ausências antes de ter maturidade para suportá-las. Adoece-se porque não podemos viver sozinhos. Adoece-se porque não conseguimos lidar com tantas frustrações dos nossos desejos. Adoece-se porque, na maioria das vezes, não se tem com quem conversar. Adoece-se porque a falta de empatia e de solidariedade é quase uma constante.

Por outro lado, o que é possível fazer enquanto sociedade?

Há uma multidão querendo apenas pertencer, ser ouvida, cuidada e amada.

A figura do deprimido é a prova de que o mundo vai mal, pois como é possível alguém se isolar a ponto de tirar a própria vida?

Imagine quão devastador é para um jovem lidar com a sua inadequação corporal e ter os seus sentimentos desprezados por quase toda a comunidade.

Falas que machucam: “Isso é falta de Deus”; “Isso é frescura”; “Se tivesse uma pia de prato para lavar…”; “No meu tempo ninguém ouvia falar em depressão!”; “Ave-Maria, fulana é a cara da tristeza!”.

Exibem felicidade, mas desprezam seus doentes, ignorando as estocadas, as bordoadas e os julgamentos que distribuem gratuitamente. Uma mente depressiva precisa da ajuda de toda a comunidade. Será que a pessoa não deu sinais porque não podia contar com as pessoas?

É sobre um novo estilo de vida adoecedor, iniciado com a Revolução Industrial, que inundou o mundo com o indivíduo, convencendo-o de que seria possível vencer sozinho. Sofremos de um grande mal pela falta de uma comunidade, de uma rede de apoio.

A saúde mental começa com pertencimento, com políticas públicas sérias, com diálogo, com amizades, com arte, mas preferem o mês de setembro para fingir empatia.

O adoecimento mental é um problema de saúde pública e deve ser pensado por todos, mas, infelizmente, esperamos o pior para depois dar visualização. Muitos dirão: “Ah, mas fulano não dava sinais de que estava sofrendo!”.

Minha pergunta para encerrar: o que você faria diante dos sinais? Muitas vezes, mesmo sabendo, a nossa sociedade preferiu não amar o doente e, nisto, quase todos nós estamos falhando.

Esconder o sofrimento, talvez, seja a “melhor” atitude para não ter que ouvir tanto desprezo e tanto julgamento. Chega o dia em que já não há mais como suportar tanta distância.

Minha grande hipótese para o agravamento das depressões não é somente a falta de tratamento, mas a falta de amor.

(29/07/26)

Josué Brito Santana*

*Josué Brito é escritor, psicólogo, biblioterapeuta, especialista  em Educação, mestre (em Letras: educação, cultura e sociedade) e professor da rede estadual de ensino da Bahia.

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