A história viva: nostálgica, essencial e muitas vezes invisível aos olhos

Primeira página do jornal O Combate, de janeiro de 1962. Foto: Iasmin Araujo

Por Iasmin Araujo

Em meio a uma das mais movimentadas avenidas de Vitória da Conquista está o Arquivo Público Municipal, um depósito que possui documentos que contam a história da cidade a partir de fotografias, jornais, panfletos, cédulas de identificação, mapas, plantas de construções e diversos outros arquivos, na Avenida Juracy Magalhães. Despercebido para muitos olhos e desconhecido por muitos habitantes da cidade, o Arquivo de Vitória da Conquista é um grande acervo de documentos dos poderes executivo e legislativo e de Memória da cidade e das pessoas que criaram suas narrativas na região. Com aproximadamente 10.292.500 documentos datados do século XIX até a década de 2020, o Arquivo preserva o que há de nostálgico e o que não se pode esquecer ou ser apagado da História. O professor de História, servidor há mais de 20 anos, Jailson Ribeiro, conta como essa preservação e a existência de arquivos como estes, sobretudo em períodos marcantes no Brasil inteiro, como por exemplo, a Ditadura Civil-militar de 1964, é importante porque “cria uma certa identidade, uma proximidade com a história, e perceber que aqui também tem história”. Jailson é um dos responsáveis por mostrar o Arquivo aos visitantes. Ele mostra a partir de alguns documentos de décadas passadas uma cidade em construção, uma Vitória da Conquista com jornais impressos como A Semana, A Palavra, O Combate, O Sertanejo e entre outros. Jailson conta que O Combate, por exemplo, foi extinto pouco antes do Golpe de 64 e em seu lugar veio O Sertanejo, com um direcionamento político voltado para os interesses do governo vigente na época.

Para além das reflexões que as páginas dos jornais deixaram para pesquisadores da região, Jailson apresentou algumas fotos da década de 1980. O Arquivo Público Municipal é um acervo com quase 50 anos de existência, e, segundo o historiador, boa parte da coleção é datada a partir da década de 1970. Por pertencer à prefeitura de Vitória da Conquista, o prédio dispõe de inúmeras fotografias de construções importantes da cidade, como a Avenida Bartolomeu de Gusmão, em 1986 e os preparos para os asfaltamentos do bairro Alto Maron em 1984, além de plantas e projetos de construção de casas e da segunda construção da atual Catedral de Nossa Senhora das Vitórias, datada da década de 1930.

Folder da primeira Micareta de Vitória da Conquista. Foto: Iasmin Araujo

Todos esses documentos históricos estão disponíveis para visitantes, desde que marque um horário para a visita. O Arquivo, para visitantes, pode não só ser uma aventura na história, como também uma fonte para pesquisas acadêmicas. No caso do estudante de licenciatura em Matemática Ricardo Lopes, que foi ao Arquivo em 2021, quando estava no ensino médio, a visita foi proporcionada por uma excursão escolar. Para ele, ver todo aquele acervo pareceu algo estranho e surpreendente aos olhos em uma primeira impressão, visto que ele não sabia da existência de um local como aquele até então. Ricardo conta que durante a visita, ele e seus colegas conheceram um livro antigo com nomes de famílias ricas da cidade, e ficaram procurando mais sobre seus antepassados, algo que rendeu curiosidades que Ricardo não pôde confirmar se era verdade, mas que se tornou uma experiência única: “eu achei muito interessante isso porque eu só pude conhecer isso lá. Só surgiu lá esse comentário. É um documento que, para ser sincero, me surpreendeu muito de ver lá por que creio eu que não veria em outro lugar”, completa.

Ricardo reconhece a importância do Arquivo para cidade: “é em essencial porque é história e história não é algo que deve ser esquecido, mas sim relembrado. Aquela quantidade de documento, aquela quantidade de papel mostra que o processo de Conquista. Você preservar é muito importante aliás, como eu disse, essencial”. A breve experiência que Ricardo teve anos atrás pode um dia refletir para seus futuros alunos. Ele, como futuro professor de matemática, pretende proporcionar aos seus alunos algo parecido com a que teve no ensino médio.

Fotografias do asfaltamento de bairros. Foto: Iasmin Araujo

Essa mesma importância é percebida por Gabrielle Medeiros, estudante de Arquitetura e Urbanismo. Segundo ela, a existência de um Arquivo Público Municipal em uma cidade tem grande relevância para os moradores porque “mesmo que não seja de conhecimento de grande parte da população, é muito importante que tenha esses arquivos guardados. É muito importante que esses documentos sejam preservados para que a identidade dessa pessoa não morra”. A estudante completa que um lugar como o Arquivo, que mantém guardados cédulas de identidade, obituários e fotografias de pessoas famosas ou não, é necessário, uma vez que lugares como esses preservam documentos que guardam a memória “de pessoas que talvez nem puderam contar suas próprias histórias”.

Gabrielle também reforça que a preservação desses documentos estão em, também zelar pelo local físico que os guardam para que toda uma trajetória se perca por falta de investimento da prefeitura em mandar recursos que proporcionem não só os cuidados, mas o incentivo às pessoas a valorizarem e conhecerem a história da cidade. “Um acervo dá a oportunidade de pessoas que nunca tiveram oportunidade de continuar existindo a não terem seus nomes apagados”, afirma.

A respeito da preservação dos documentos, a responsável pelo acervo cartográfico Lia Oliveira, pós-graduada em Arquivologia, conhecida pelos seus colegas de trabalho como tia Lia, conta que para restauração de papel, por exemplo, “sempre está faltando material”, mas no dia a dia, ela e os funcionários fazem o básico para manter os arquivos bem cuidados, como usar luvas, máscaras no rosto e evitar comer enquanto manuseia os documentos, para evitar que apareçam insetos que se alimentam de papel como traças e piolhos-de-livro. “Quem trabalha no Arquivo tem por obrigação zelar pela documentação, eu me sinto muito privilegiada e importante de trabalhar aqui”, afirma Lia.

O professor de redação, formado em História e Letras Vald Ribeiro, precisou visitar o arquivo pouco mais de 23 anos atrás para fazer suas pesquisas para o trabalho de conclusão de curso da graduação em História. Ele conta que antes da graduação não sabia que o Arquivo possuía documentos históricos; para ele eram apenas documentos relacionados estritamente à prefeitura e a imóveis. Quando foi fazer sua pesquisa devidamente, aproveitou para olhar arquivos que não estavam diretamente ligados ao seu objeto de estudo: “eu fiquei encantado diante de tanto documento histórico e ver o quanto é rico aquele espaço enquanto guardião da História do município”, comenta.

Visitar o Arquivo Público Municipal é uma forma de estudar o passado de forma crítica e também relembrar momentos que trazem nostalgia, como afirma Vald: “as imagens contidas nos jornais refletem uma nostalgia de um tempo que já passou, de um momento que ficou registrado para sempre”.

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