Era para ser apenas um bate-papo descontraído sobre sonhos, mas uma moça preta resolveu roubar a cena. Em seus comentários, sua idade de 21 anos já estava avançada para sonhar, mas se tivesse pelo menos uma casa e um emprego de salário-mínimo talvez fosse diferente.
Sua fala era uma afronta ao meu trabalho, uma revolta de mãe, uma voz sufocada pelo tempo, que, aos poucos, desafiava o palestrante, impondo silêncio constrangedor e espanto. Como morava na casa dos patrões, via seus filhos nos finais de semana. Culpava seu pai por tê-la abandonado, culpava sua mãe por cobrar excessivamente pela comida e cuidado com os netos. Depois, culpou seu ex-companheiro por lhe deixar com dois filhos. Tudo nela era remorso. Eu ali, ouvindo, calado, pensando que, talvez, pudesse interferir e falar de coisas boas, sobre o dia da mulher, por exemplo.
Reclamou o direito de uma creche e o direito de cuidar dos filhos como cuidava dos do patrão na cidade.
Calou-se no abraço da colega de classe.
Pensei: “É nisso que dá, querer ouvir o que as pessoas invisíveis levam em seu peito!” Senti ódio de mim.
Queria que fosse um encontro de risos, de trocas e de motivações, mas saí de lá com a imagem do desprezo e era apenas a mulher preta e pobre, babá dos meus filhos. Meu sorriso amarelo e meu abraço foram as únicas coisas “sinceras” que pude oferecer.
Aquele dia teria sido melhor se a moça ficasse quieta. Afinal, a vida é uma questão de escolhas.
Mulher preta e pobre, trabalhadora, é para ti que faço meu pedido de perdão
Josué Brito Santana
Psicólogo (Mar/26)