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Tia Ciata no carnaval do Rio em 2027

Viva Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata! Viva a Tuiuti! Viva o Samba!

Palavras!
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Soube hoje que a Paraíso do Tuiuti homenageará Tia Ciata no carnaval de 2027. Notícia alvissareira! Justíssima homenagem à mãe do samba!  Já havia passado do tempo para uma Escola de Samba fluminense homenagear exclusivamente Tia Ciata. Em 1983, a Império Serrano fez uma homenagem às baianas na qual tia Ciata foi lembrada, mas ela não foi o tema central do enredo.

É claro que a matriarca do Samba é    — e será — sempre lembrada e celebrada em todas os desfiles nas alas das baianas com a mesma reverência e afeto com que se rememoram e louvam a Jesus Cristo na Eucaristia,  mas homenageá-la exclusivamente   em um samba-enredo é da maior importância.  O que seria das escolas de samba sem a ala das baianas? Seria negar a origem do samba!  Seria, também, negar as bênçãos das baianas como o abre-caminhos aos passistas em todas as apoteoses.  Tia Ciata é a mãe do samba que conhecemos hoje. Ela levou para o Rio de Janeiro o gingado gostoso e serelepe do samba de roda da Bahia, que aos poucos foi se misturando ao maxixe e ao lundu nas grandiosas festividades promovidas por ela, geralmente em sua residência, para formar o samba urbano atual.

Se ela fosse nossa contemporânea, certamente seria uma das mulheres de  maior empoderamento sociocultural e feminista do momento; provavelmente, seria destaque na imprensa.  No começo do século XX, ela já era uma das mulheres mais empoderadas social e culturalmente engajadas do país, ainda que a imprensa da época não tenha dado destaque às ações dessa célebre baiana.

 Mas o que importa se a imprensa da época não dava destaque à Tia Ciata? Mesmo sem os jornais, a voz e as ações da matriarca do samba ressoavam no Rio e a fizeram famosa e amada!  No Terreiro em que ela comandava na Praça Onze — espaço na Pequena África, a região da antiga  Zona Portuária do Rio de Janeiro, que abrangia os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo —, pessoas do toda a cidade e classes vinham participar das grandiosas festividades entre candomblé, fé e os ritmos do povo preto. A fama da matriarca do samba espalhou-se pelas ruas, morros, baixadas do Rio chegando a ricos e pobres, trabalhadores e políticos — dentre os políticos Wenceslau Braz, o então presidente da República. Havia cinco anos que Braz sofria de uma grave ferida na perna. Nenhum médico    conseguira resolver o problema. Tia Ciata, a convite do presidente, e valendo do seu   poder de mãe de santo e das ciências africanas, fez com que ele se recuperasse em três dias. Em gratidão, o presidente, além de contratar o marido de Tia Ciata para o serviço público, ainda garantiu que o Terreiro dela não fosse perseguido pela polícia. Ele contribuiu para que o Estado fosse mais tolerante com os eventos festivos do povo preto, em uma época em que as manifestações afro-brasileiras era tratadas como caso de polícia devido às leis racistas que regiam o país.

Baiana, nascida na terra de Caetano e Bethânia — Santo Amaro da Purificação —,   tia Ciata partiu para o Rio de Janeiro em 1876, aos 22 anos, levando consigo a filhinha de dois anos de idade. Levava também uma rica bagagem cultural, religiosa e de liderança social (em sua cidade natal, foi uma das fundadoras da Irmandade da Boa Morte).   No Rio, constituiu família, se tornou mãe de santo e grande promotora de eventos de matriz africana, além de acolhedora dos baianos que partiram para o Rio à procura de melhores condições de sobrevivência. Além dos conterrâneos, ela acolhia e ajudava a quem quer que aparecesse em condição de vulnerabilidade na Pequena África, motivando ou encaminhando essas pessoas para o trabalho autônomo em diversas funções: se fosse mulher,  ela preparava-as para serem quituteiras, bordadeiras ou passadeiras; já os homens, encaminhava-os para os trabalhos no cais. E por falar em trabalho, ela incentivou e contribuiu para a formação do primeiro sindicato de estivadores   que se tem conhecimento no Brasil, no porto do Rio de Janeiro.  Tia Ciata foi além da cultura, da resistência e da fé!

A Matriarca do Samba é uma heroína do nosso país que ainda não foi devidamente reconhecida.  Ela ainda não figura, por exemplo, no Panteão dos Heróis e Heroínas da Pátria. Existe um Projeto de Lei no Congresso Nacional para que ela figure no livro do Panteão, mas há anos esse projeto é “esquecido” no Parlamento. Quem sabe agora, com a magnifica homenagem da Tuiuti, os parlamentares se sintam motivados a homenagear a Matriarca do Samba!   

Viva a Paraíso do Tuiuti! Viva Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata! Viva o Samba!

Vald Ribeiro

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