Em julho, Orides Fontela passará a ser uma poeta conhecida e reconhecida pelo grande público brasileiro. O feito caberá à 24ª Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece entre os dias 22 e 26 de julho. Ela é uma daquelas celebridades da literatura vítimas de um ostracismo incompreensível. Por que alguém de tão grande vitalidade poética e intelectual não conseguiu a mesma fama de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles ou João Cabral de Melo Neto, por exemplo?

Orides foi um helianto que vicejou em um pequeno jardim cercado de muros ao qual poucas pessoas contemplaram. Mas se o helianto se vira para o sol e o segue na trajetória diária, quem conheceu a poesia de Orides se tornou o próprio helianto, e a poeta passou a ser o sol — a começar pela crítica literária acadêmica que logo se encantou, seguiu o brilho de Orides e a reconheceu como um dos mais importantes nomes da poesia brasileira contemporânea. Também se transformaram em heliantos, girando em torno do Sol-Orides, os leitores que tiveram o prazer de ler e apreciar os poemas da autora.

Helianto é o título de um poema e do segundo livro da poeta. Nessa composição, ela nos presenteia com essa palavra nada cotidiana, que é sinônima de girassol. São versos concisos cujas palavras trazem um caminhão de significados. A flor helianto pode ser entendida como metáfora da busca da luz, da busca do conhecimento, também pode ser a síntese da obra da autora. Os versos dialogam com Platão — quando o filósofo discorre sobre a Teoria das Ideias. Há versos que lembram os pensamentos de Heráclito. Aliás, por falar em Heráclito, aquele pré-socrático que filosofava sobre o devir, convém lembrar sua eterna afirmação: “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”. Se para ele as águas do rio não são as mesmas, nem o homem é o mesmo — já que tudo flui —, na poética orideana é possível afirmar que ninguém lê o mesmo poema de Orides duas vezes. Isso porque o mesmo poema lido, relido, treslido nunca permanece o mesmo, já que o leitor sempre encontrará novos sentidos, novos signos. Em certos poemas dessa diva da poesia, é natural que o leitor se sinta como aquele personagem do conto “A caçada”, de Lygia Fagundes Telles, que ia todos os dias a uma loja de antiguidades observar a paisagem de um tapete, até que ele começou a perceber movimentos e acabou se integrando à paisagem dessa peça decorativa. No caso do leitor, tal integração não ocorre por loucura, mas pela doce fusão da poesia-signo com a intelectualidade.
Impossível não se sentir atraído pela poética de Orides! Antonio Candido, por exemplo, em olhar apaixonado pela poesia e simultaneamente com um olhar clínico sob a ótica da teoria da literatura, demonstrou a grandiosidade poética da autora de Helianto no prefácio do livro Alba, 3ª antologia da poeta, lançada pela primeira vez em 1983. Segundo ele
“Um poema de Orides Fontela tem o apelo das palavras mágicas que o pós-simbolismo destacou, tem o rigor construtivo dos poetas engenheiros e tem um impacto, por assim dizer material de vanguarda recente. Mas não é nenhuma destas coisas, na sua integridade requintada e sobranceira; e sim a solução pessoal que ela encontrou. Parecendo tão inseridos numa certa evolução da poesia moderna, e sendo tão originais como invenção, os seus versos possuem em geral uma carga de significado que não é frequente.”
É essa carga que faz com que cada releitura de um poema orideano não seja igual à primeira leitura, o que corrobora a sequência das afirmações de Cândido: “Orides trabalha na base de uma parcimoniosa opulência ou, de maneira mais simples, que produz muito significado com poucas palavras”.
Que celebridade da poesia brasileira economizou tanto as palavras e expandiu tanto os sentidos verbais quanto Orides? Não conheço outro senão ela. Numa peleja comparativa entre João Cabral de Melo Neto, poeta que tão bem soube economizar palavras, Orides ganha! Em ambos, temos o inutilia truncat — de Horácio — levados à exaustão.
Esperemos pela 24ª Flip! É bem-vinda e necessária a homenagem a nossa nobre poeta. Viva a 24ª Flip! Viva Orides Fontela!
Vald Ribeiro