A velha casa

Cinzas, formigas e afetos

Palavras!
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Josué Brito Santana

Uma casa aqui, outra acolá e a paisagem seca, cortada por estrada de terra vermelha, esperando as águas. O sertão é um mundo. Uma casa me habitou por causa de minha mania de enxerido. Ficava lá no alto e seu jeito de ser, com batentes largos e paredes gastas, quase a desabar, carecia de cuidado. Cuidado que tive, mesmo louco pra ver o que sobrara com o tempo, sem querer ser recebido por peçonha. Abri a porteira e uma formiga deixou seu contragosto em minha mão. Respeitei o seu direito de viver. Como porta não mais havia, entrei. Sala e quartos vazios, repletos de folhas secas e fezes de morcegos. O piso era de cerâmica mostrando que em algum momento a casa havia passado por melhoramento. Um armário velho ocupava a antessala e quis repetir o gesto do antigo morador, sorte de bisbilhoteiro de não ser picado pelas abelhas que habitavam confortavelmente o móvel. Tive medo de colher o mel, mas continuei a explorar.

Na cozinha, um velho fogão de lenha ainda guardava cinzas e picumã esperando alguma fagulha ou um bocado de lenha. Quantos banquetes deu ponto? Quantos piquis cozinhou? Quanto requeijão fritou? Quanta barriga saciou? Quanta gente reuniu? Quantos elogios dona Rosa recebeu? Dona Rosa foi o nome carinhoso que deveria ser chamado a dona da casa, mestre na arte dos quitutes.

Imagino sua pele negra, não retinta, queimada de sol, cabelos brancos de idade, magra de corpo, de estatura mediana, andar lento e voz suave feito o amanhecer. Imaginei dona Rosa me convidando pra um café. Então, lhe pedi licença e me sentei naquele banco de madeira que ficava perto da parede.  Dona Rosa “consertava” uma galinha caipira, que era um modo de receber bem. Dona Rosa me disse que sentia saudades das festas da Semana Santa e do São João. De como seu Nelson gostava de soltar fogos e de ver os filhos dançando e cantando. Pedi sua licença para ir ao quintal e caí do transe. Debaixo de uma árvore, uma carcaça de um carrinho de brinquedo me fez ver que houve infância naquela casa. Vi. Nelsinho Junior feliz, com seu sorrisinho de criança sapeca, sem camisa, puxando seu carrinho cheio de caroços e dona Rosa gritando: “Sai do sol mininu, tá na hora de tomar banhe!”

Olhei mais adiante e vi um pé de umbu e embaixo os restos do que foi um dia o carro de boi, quase que engolido por um formigueiro. As formigas sempre vencem. Dois carros abandonados, duas realidades. Pensei no dia em que os adultos conseguiram o seu brinquedo e de como puderam apressar a sua labuta. Se havia carro de boi, havia junta de boi. Se havia junta de boi, havia lavra. Se havia lavra havia roças de mandioca. Se havia roças de mandioca havia festa. Se havia festa havia comunhão. Imagino o casal colocando filhos no mundo para lhe aumentar a satisfação.

Mas os filhos cresceram e acompanharam os outros, com destino a São Paulo, que é o lugar da riqueza. Devem estar todos por lá, cheios de bugigangas e medos novos. Dona Rosa bem que tentou segurá-los por mais tempo, mas só tinha amor pra oferecer. Daí última vez que recebeu visita dos filhos, ganhou o piso de cerâmica e um armário novo.

Quase que engolida pelo formigueiro, uma foice velha fazia companhia ao carro de boi. Não resisti e a roubei, desse crime sei que vou sofrer.

Os filhos foram se desgarrando, obedecendo à lei da vida, porque precisavam voar, achando que, ao regressar, encontrariam tudo do mesmo jeito, o mesmo afeto e o mesmo sol escaldante. No sertão nada muda e tudo muda sempre.

O que restou de casa ficará com algum herdeiro e a cancela na entrada terá um cadeado de presente, pra sorte dos bichos peçonhentos.

Imaginei dona Rosa acordando cedo, surpreendendo o sol, correndo a vassoura de mato pelo quintal de chão vermelho, cantando baixinho. Imaginei dona Rosa aguando suas plantas e conversando com elas. Imaginei dona Rosa se agachando pra por água na vasilha do gato Chico, seu companheiro preguiçoso. Imaginei dona Rosa cobrindo o carro de boi com um pedaço de lona pra protegê-lo do tempo, debaixo do pé de umbu. Imaginei dona Rosa conversando com o carro de boi, deve de ser de saudade do marido, deve de ser de saudade do barulho, deve de ser…

Imaginei dona Rosa insone, pedindo a Deus uma boa hora. Imagino que dona Rosa poderia ter ficado um pouquinho mais.

Josué Brito Santana

Set/26

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