CRÔNICAS

Carolina Maria de Jesus desfila no Carnaval do Rio de Janeiro

Da pequena cidade de Sacramento ao topo da cultura brasileira! A trajetória de Carolina Maria de Jesus é o grande samba-enredo da Unidos da Tijuca para este carnaval.

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Morre hoje o homem que era contra a morte

Vald Ribeiro Morre hoje o homem que era contra a morte: Luis Fernando Veríssimo. Aliás, Veríssimo disse que era contra a morte em uma entrevista que dera à Folha de São Paulo em 2013. Nessa entrevista, ele também disse que a morte era uma sacanagem. Pois hoje a morte completou a sacanagem com Veríssimo e o tirou do nosso convívio físico.  Sem dúvida, foi uma puta sacanagem não só para Veríssimo, mas para nós habituados a ler as crônicas, os romances, assistir as peças dele. Desde 2021, a morte aplicava lenta e gradual sacanagem a Veríssimo ao aplicar-lhe o mal de Parkinson e AVC. Desde essa época, ele era vítima da sacanagem…

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Cair como um patinho literário

Vald Ribeiro Daqui de longe vejo fotos da Bienal do Livro no Rio. Há pessoas com cara de felicidades por toda parte, muitas ostentam meigos souvenires de patinhos amarelos. Umas pessoas usam os patinhos como adereço na cabeça, outras como um broche no busto, há adolescentes que acondicionaram patinhos na mochila. Crianças e adolescentes com sorriso no rosto, mulheres sorridentes ou de fisionomia sisuda, homens com cara de comunista ou de roqueiro ortodoxo ostentam um patinho em alguma parte da roupa. Achei a coisa mais linda do mundo ver tanta gente ostentando patinhos literários — assim são chamados esses mimos — e simultaneamente carregando sacolas e mais sacolas de livros na mão…

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O ciclame e a cerejeira

                                                                                                                          Vald Ribeiro Era uma vez um ciclame vermelho em um vaso branco que ficava sempre sobre o peitoril de uma varanda em um apartamento no segundo andar de um prédio. A varanda ficava perto de um belo jardim que ostentava uma cerejeira majestosa. Nos primeiros dias do mês de junho a cerejeira floriu e um galho achou de se entrelaçar com o ciclame carregado de flores. O galho, aos poucos foi se aproximando do ciclame, de modo que bastava uma brisa leve para que esse, repleto de delicadas flores tocasse, ora suave ora intensamente, as flores do Ciclame.  Nesses deliciosos toques, ambas as flores trocavam carinhos e pólenes. Os humanos que…

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Luis Fernando Verissimo não escreve mais, as palavras escapam, e não toca mais sax, diz a sua mulher Lúcia

Brasil de Fato Por Eugênio Bortolon Luis Fernando Verissimo está com 88 anos e tem uma rotina interessante e bem doméstica. Ocupa quase todo o seu tempo sem sair da casa que herdou do pai, Erico Verissimo, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, sempre acompanhado pelos olhos vigilantes, carinhosos e sorridentes da sua mulher, a carioca Lúcia Helena Massa, com quem está casado desde 1963. Foi de tudo na vida das comunicações, mas ironicamente com suas maiores características – o silêncio, a timidez e as poucas palavras que ousava proferir. Era lacônico. “Nunca fui muito íntimo de mim mesmo, nunca examinei o que eu fiz, o que eu deixo de fazer”, disse quando completou 80…

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O velho e a pipa

Manhã de vento e sol. Armísio entrou no quarto, subiu cuidadosamente na cama, alcançou o topo do guarda-roupa. Lá estava a enorme pipa vermelha e amarela. Pegou-a com o mesmo cuidado e o carinho de quem pega um raro vaso chinês. Desceu com cuidado. Calmamente, desenrolou a rabiola envolta na pipa. Examinou a chaveira: estava tudo em ordem! No quintal, ele subiu lento e sutil pela velha e carcomida escada de madeira encostada na parede anos atrás. Não tinha mais a mesma destreza nem a mesma coragem de quando tinha dez anos de idade, nem a mesma agilidade dos 15 anos.O tempo pesava sobre seu velho esqueleto de  86 anos de idade.…

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Enquanto isso o bullying corre solto

A consciência de que é preciso fazer algo contra o bullying é urgente. São muitos estudantes adoecidos por conta dessa atitude covarde. Violência que marca, que fere, que adoece, que frustra e faz fracassar, que traz consequências, muitas vezes, trágicas, que afetam as famílias, o sistema de saúde e a sociedade como um todo. Fazer que o outro seja motivo da minha piada não tem graça nenhuma. Mas não é somente a galhofa, o bullying se dá também por palavras, ofensas, espancamentos, ameaças, assédios de todo tipo etc., com o fim único de humilhar o outro, que é diferente. Sentir prazer quando o outro sofre é doença. Trata-se de   perversidade, preconceito, ódio,…

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A mulher sem parentes morreu anteontem

Olhei com pesar a notícia em uma revista online de que a mulher sem parente morreu anteontem pela manhã. Ela estava a 24 anos em coma. A mulher foi atropelada por um ônibus na capital do Espírito Santo. Foi internada no Hospital da Polícia Militar, que durante esses 24 anos prestou toda a dignidade e assistência médica que merecia um ser humano em coma na UTI. Clarinha era o nome dela. Deram-lhe esse nome no hospital porque na época do acidente ela não portava nenhum documento. A notícia mostrava o quanto a assistência social do hospital tentou localizar os familiares. Tentaram tudo que fosse possível e impossível para encontrar parentes da moça:…

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Uma mulher que escreve enquanto lê e caminha

Quantas vezes me descubro dando murros em ponta de faca e abraçando tantas causas que me são caras, que quase não consigo me carregar. Vou e volto, pois sei que não sou necessária e que não tenho nada a oferecer. Apesar disso insisto.  “Não vejo vantagens de caminhar com você”, foi o que ouvi certa vez de outras mulheres. Foi bom. Como cicatriz me lembra diariamente a dimensão da realidade, do que não podemos alcançar e tocar, que o mundo continua a ser marcado pela lógica da vantagem e do lucro, e que parece só ser possível viver em estado de competição, todos contra todos. Como a gente faz pra desacreditar dessa…

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Lições do Bambuzal

Para aprender é preciso olhos atentosOuvidos abertos assim como a menteA natureza traz a sabedoria há temposBasta olhar e escutar o que ela sente. Observei com atenção um lindo bambuzalNa passagem para o aeroporto de SalvadorE pude sentir sua sabedoria magistralSilenciosamente falou-me com amor: O bambu nos ensina sobre ter humildadeDiante dos problemas e das dificuldades,Permanece firme e forte sem abandonar a lidaAssim, nos ensina a vencer as intempéries da vida. O egocentrismo tem destruído muita gente através do tempoAqueles que se julgam superiores demais para ouvir conselhosO bambu cria raízes profundas, sem espelhosTão grande por dentro não é derrubado por nenhum vento. Você precisa aprofundar todos os dias as suas raízesO…

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Tempo de pião

Sei que nem todos gostariam de mexer na criança interior para não acessar feridas não curadas. Lamento muito quem se esquece da infância, mas acho que essa fase da vida não foi qualquer coisa. Entre tantas perdas e ausências em minha infância, há muito de beleza e encantamento também. Costumo segurar as mãos de Josuezinho sempre que me sinto muito angustiado e tento recordar de como ele agiu quando estava sufocado. Com muita alegria, recordo-me de muitas coisas, uma delas foi a aprendizagem do tempo de pião. Tudo tinha o seu tempo e eu me sentia fora dele, querendo pertencer ao grupo, sem os requisitos necessários. O meu primeiro pião era “catatau”,…

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Sem Censura Forever!

Assim como eu, certamente agora, muitas pessoas estão felizes assistindo ao renascimento do programa Sem Censura. Quantos telespectadores estavam sonhando com a volta do programa! Eu também estava sonhando!  Há uma felicidade em mim que não cabe em palavras. Só quem assistia ao programa antigamente sabe o que estou sentindo. A bancada repaginada mantém a aparência das antigas bancadas. A apresentadora Cissa Guimarães magnificamente definida esbanja simpatia, alegrias e intelectualidades — e mantém a deliciosa tradição de todas as mulheres que passaram por lá.  Os novos debatedores, os convidados, o cenário contribuem para que o Sem Censura de hoje seja como dantes: leveza, razão, cultura e magia. Tão gostoso assistir ao programa…

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Enchentes no Rio de Janeiro nas crônicas de Machado de Assis

2 de fevereiro Avocat, oh! passons au déluge! Antes que me digas isso, começo por ele. Não esperes ouvir de mim senão que foi e vai querendo ser o maior de todos os dilúvios. Sei que o espetáculo do presente tira a memória do passado, e mais dói uma alfinetada agora que um calo há um ano. Mas, em verdade, a água, depois de ter sido enorme, tornou-se constante, geral e aborrecida. Mais depressa que as demandas, a chuva deitou abaixo muitas casas que estavam condenadas a isso pela engenharia; mas as demandas tinham por fim justamente demonstrar que as casas não podiam cair sem dilúvio, e a prova é que este…

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Crônica de Lima Barreto publicada no dia 11 de janeiro de 1915

O binóculo Ontem, domingo, o calor e a mania ambulatória não me permitiram ficar em casa. Saí e vim aos lugares em que um “homem das multidões” pode andar aos domingos. Julgava que essa história de piqueniques não fosse mais binocular; o meu engano, porém, ficou demonstrado. No Largo da Carioca havia dois ou três bondes especiais e damas e cavalheiros, das mais chics rodas, esvoaçavam pela Galeria Cruzeiro, à espera da hora.  Elas, as damas, vinham todas vestidas com as mais custosas confecções ali do Ferreira, do Palais, ou do nobre Ramalho Ortigão, do Parc, e ensaiavam sorrisos como se fossem para Versalhes nos bons tempos da realeza francesa.  Eu pensei…

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Alegria nas pernas

2 de setembro de 2023 Confesso. Não sou fã de futebol. Não que o ache desinteressante. Se não fosse, muita gente boa não teria despendido tempo para pensá-lo e até produzir literatura. Luís Fernando Veríssimo, Nelson Rodrigues, João do Rio, Ruy Castro, Ferreira Gullar e tantos outros. Com Lima Barreto, autor de O triste fim de Policarpo Quaresma, não foi diferente. Mas para criticá-lo. Dizia este, no início do século XX, momento em que o futebol começa a cair no gosto do povo brasileiro, que era um esporte que só gerava brigas e desperdício de dinheiro público. Mais tarde, o escritor alagoano, Graciliano Ramos diria que era “só fogo de palha”. E as…

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Antes que a guerra comece

Publicado em 22 de fevereiro de 2022 Segunda-feira, vinte e um de fevereiro de 2022. Pouco mais das onze horas da noite. Duas pessoas ao celular: o homem na Zona Leste; a mulher na zona Oeste. Ela: ─ Estou com medo de que haja uma  terceira guerra mundial agora, Adilson.  Imagine você que eu sonhei na noite passada que Putin tinha invadido a Ucrânia, pelo lado… daquelas repúblicas separatistas, sabe? A Rússia disparava muuuuuuuiiiiiiiiiitas ogivas  nucleares na Ucrânia.  Depois a Rússia tinha sido atacada pelos Estados Unidos, pela França, Inglaterra. E o Brasil tinha declarado guerra à Ucrânia. ─  a voz agora embargada, quase chorando. Adilson, com o celular na mesa em …

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Brincando com o novo coronavírus

O bebê está sorridente no carrinho que o pai vai empurrando ao lado da esposa. O bebê em sua vitalidade e meiguice espia o mundo! Olhos atentos a um mundo a se descobrir. O colorido das pessoas que passam, a fachada das lojas fechadas, tudo atrai o bebezinho. Deve ter uns dez meses − porque está altivamente sentado no carrinho.        O pai, com a máscara respiratória no queixo conversa com a esposa. Ela é nova, bela. Camiseta colorida, bermuda curta branca. A máscara branca caída abaixo do queixo é apenas um adereço estranho.   Ele de camiseta cinza, bermuda jeans. São jovens. Deve ser o primeiro filho. Pai, mãe e filhinho desfilando…

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