Vald Ribeiro
Camelôs de São Paulo já estão vendendo o kit Pastor. Como são hábeis os profissionais do mercado informal! Nenhuma megaempresa de vestuário ou de qualquer outro setor da indústria conseguiria criar em tão pouco tempo um produto inspirado em um fato, como o ocorrido no dia 13 com pastor flagrado em Goiânia usando calcinha, lingerie rosa e vistosa peruca loira e já colocá-lo à venda. Em menos de 24 horas após a exibição do vídeo do pastor travestido de dama da noite, os camelôs conseguiram criar um kit idêntico às vestes eróticas desse homem de Deus e já estão vendendo por 70 reais na Vinte e Cinco de Março em Sampa.
Para que servirá o kit pastor? Pergunto atônito aos quatro ventos. Quem o comprará? Um esposo o compraria para a amada usar em um momento de criativa volúpia? Alguém inspirado no detetive pastor, compraria a indumentária para fazer uma diligência investigativa, tal qual a justificativa do pastor goiano? Apenas casais homoafetivos — destes livres dos traumas do pecado imposto pelo cristianismo evangélico — o comprariam para viver uma meiga fantasia sensual?
Nesta dúvida e, pleno de galhofa, comentei com um amigo meu sobre as novas vestes do pastor. Resoluto, meu amigo disse que as usaria como fantasia carnavalesca. Ele até teve a ideia de fundarmos um bloco de carnaval para fevereiro de 2026. No bloco, todos os componentes se fantasiariam do pastor investigador de Goiânia. Ele ainda foi mais longe: para ficar bem autêntico à considerável parcela de cristãos atual, cada folião deveria levar um simulacro de Bíblia, usar sapatilhas amarelas, botons de patriotas, bandeiras do Brasil, ou de Israel, ou dos Estados Unidos. Rimos às bandeiras despregadas!
Mas, voltando à realidade, fiquei curioso para ver como está a aceitação do kit. Se eu pudesse, iria hoje mesmo à Vinte e Cinco de Março — ou qualquer outra área de camelôs paulistanos — para fazer uma análise sociológica sobre a vendagem do kit pastor. Eu ficaria horas observando os compradores. Descontraidamente, usaria técnicas de espelhamento e leitura fria, e procuraria saber deles para que e porque estariam comprando a vestimenta inspirada no pastor. Compram para galhofa? Compram para turbinar momentos de prazer? Compram por catarse depois de uma súbita epifania de assumir ato proibido, do qual o corpo e a alma sempre desejaram viver, mas que sempre foi tolhido pela religião de matriz judaico-cristã?
A imprensa não mostrou mais nada sobre o pastor travestido. Como ele está emocionalmente? Sofre porque no momento do flagra ele vivia um justo momento de autorrealização — reprimido pela moral religiosa e bem longe dos sermões antigay dos cultos em que ele dirigia? O pastor está sofrendo por causa do duro tribunal da internet? Estará livre do remorso porque ele é um exímio e criativo detetive? Está feliz com a ampla exposição na internet e na imprensa, o que o catapultaria para uma candidatura vitoriosa ao legislativo do ano que vem?
Mas, aqui para nós: criativo mesmo é quem inventou o inusitado kit para comercializar. Fico pensando na competência dessa engenhosa pessoa pela bela ideia que teve e por colocá-la em prática em tão pouco tempo! Torço para que o kit seja sucesso de vendas tal qual o morango do amor. Também torço para que o pastor de Goiânia não exija direitos de propriedade intelectual sobre o kit — afinal, não agravando, a todos, mas sempre têm aqueles pastores que adoram ajuntar tesouro na Terra e esse pastor poderia estar de olho numa graninha extra. Mas acho que esse pastor investigador não faria isso; ele nos parece um cara honesto e de afável criatividade.
Nota do editor: Esta crônica é baseada em fatos divulgados pela imprensa no dia 16 de agosto de 2025