Sei que nem todos gostariam de mexer na criança interior para não acessar feridas não curadas. Lamento muito quem se esquece da infância, mas acho que essa fase da vida não foi qualquer coisa. Entre tantas perdas e ausências em minha infância, há muito de beleza e encantamento também. Costumo segurar as mãos de Josuezinho sempre que me sinto muito angustiado e tento recordar de como ele agiu quando estava sufocado.
Com muita alegria, recordo-me de muitas coisas, uma delas foi a aprendizagem do tempo de pião. Tudo tinha o seu tempo e eu me sentia fora dele, querendo pertencer ao grupo, sem os requisitos necessários. O meu primeiro pião era “catatau”, apelido carinhoso, que me levava às lágrimas e risos em meus amigos maldosos. Pois bem, o meu pião insistia em não tocar, em ficar de pé e quando isso acontecia, saía pulando como se estivesse possesso. Mas não era somente o fato de ser um brinquedo ruim, eu também não tinha as manhas. Com o passar dos dias, fui aprimorando aqui e acolá, observando como enrolavam o linho, retirando “castelo”, a parte superior, afinando a ponta do prego, aprumando e escolhendo os melhores dedos para o laço, a posição das pernas e o ângulo do braço. Insisti porque tinha um objetivo. Quando aprendi a tocar o pião na “roladinha”, precisei entrar na aprendizagem de outra técnica mais refinada, a “enfica”. Em seguida, apareceu alguém tocando o pião no ar e dominando na unha.
Vocês não imaginam como Josuezinho sofreu e como se sentiu ao conseguir, degrau por degrau, dominar todas as técnicas.
Hoje, quando me vejo refém de uma cara feia ou de uma reprovação e frustração, lá está Josuezinho com o seu pião a me oferecer, gentilmente: “Esquenta não, tenta de novo, você já fez o seu pião girar!”
Josué Brito Santana – Psicólogo
FEV/24