O primeiro morango

Gravura: Freepik

 

O brilho tênue do sol invadia o quarto.  O marido dormia.  Ela desceu delicadamente da cama e na ponta dos pés dirigiu-se à varanda. Abriu com cuidado a porta e viu o que almejava: o moranguinho vermelho e brilhante em meio a outros dois ainda verdes!

Suspirou de felicidade. Há dois dias evitava que o amado chegasse à varanda: ansioso e empolgado do jeito que ele é, certamente colheria o morango ainda imaturo.

Imagem: reprodução

Enfiou carinhosamente os dedos entre as folhas e apalpou a frutinha viçosa. Que delícia! A saliva precipitando na boca. Imaginou a reação do marido: pularia de felicidade feito criança quando ele deparasse com o estado do morango; depois a abraçaria, a beijaria e diria: “que maravilhaaaaaaa!”  Que outro homem teria reações tão alegres e singulares como o dela? Nenhum! Sorriu.   Dádiva de Deus ter um homem assim!

 Que outro casal moraria em apartamento e teria na varanda um morangueiro só para satisfazer o instinto romântico dos dois? Lembrou-se do dia em que os dois, encheram de terra preta o vaso de argila e semearam as tenras sementes: o sorriso de felicidades dele, os olhos brilhando como uma criança fascinada que recebia um presente. Ela:  plena de êxtase e expectativa.

Enfim chegou o grande dia de colher o primeiro fruto daquele ato romântico.

Ruídos vindos da cama. O amado acordara! Ela colheu com carinho a frutinha e tratou de devorar a metade antes que ele chegasse.

Ao abraçá-la, ele percebeu de relance o morango pela metade na mão da companheira. Sorriu, sabia que ela não comeria a outra parte porque com certeza ela lhe aprontaria alguma coisa boa. Abraçaram-se.  Ela sorrindo. Ele colheu o sorriso num beijo. As línguas se tocaram, se envolveram…  Ele sentiu a doçura e a acidez tênue do morango que a língua da amada trazia.

Ela desvencilhou-se dos lábios do amado e virou o rosto. Os lábios dela voltaram segurando a outra parte do morango e o entregou na ponta dos lábios dele.

Vald Ribeiro
(vald@revistapalavras.com.br)

Esta crônica é uma obra de ficção. Qualquer referência a pessoas ou eventos reais é mera coincidência

 

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