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Como pode uma casa abandonada na praia?

Lá fora, o mar e o seu eterno ir e vir. Quando falei daquela casa abandonada e do meu espanto, as pessoas apenas disseram "tem muito mais por aqui!"

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Ao fundo, uma área gourmet guardava resquícios de que houve uma última festa, com garfos e facas enferrujadas numa cuba de pia. Ao lado da churrasqueira um quartinho de bagunça com quinquilharias que  não tive coragem de conferir, mas a cadeirinha de segurança de criança ainda estava lá. No outro lado da varanda uma grande mesa dessas que clamam por uma festa e mais adiante um freezer enferrujado segurava um saco empedrado de cimento e engradados de cerveja.

Tentei ouvir as vozes que passaram por ali, as famílias que se alegraram, as histórias, as piadas… Pensei na cadeirinha e achei que a última criança que chegou àquela casa veio de longe e se chamava Lavínia, uma menininha loira, com quatro anos, rica, filha única e que, nesse momento, deve ser uma médica renomada em algum lugar, seus pais moram no exterior e por isso deixaram aquele imóvel ao léu.  O saco empedrado de cimento me fez lembrar que algo de muito terrível poderia ter acontecido para deixá-lo também sem função porque cimento me lembra reforma, desejo de melhoria.   Lembrei-me da Pandemia e tentei justificar o abandono, mas aquele estado adiantado de desmoronamento precisou de mais tempo. Tempo que tudo arrasta lentamente.

Não quis dar lugar ao pensamento de tragédia, preferi acreditar na alegria e que aquela casa se encontra desprezada porque os donos a venderam para um investidor usurento que desistiu da reforma e deixou pegar preço. Pronto, assim fica mais fácil entender o desprezo, pois aquilo que não serve aos nossos interesses deve se tornar inútil.

Ao lado da casa, um pé de cacau anunciava a esperança, a singularidade da natureza, a renovação, o desejo de vida, a flor e o fruto. Nasceu por obra dos micos. Era uma planta nova que contrastava com a casa.

No fundo, nossas criações são assim mesmo, mas a natureza continua. Lá fora, o mar e o seu eterno ir e vir. Quando falei daquela casa abandonada e do meu espanto, as pessoas apenas disseram “tem muito mais por aqui!”

Como pode naturalizar o desprezo ou deixar uma casa sem pessoas dentro? Como pode uma casa abandonada numa praia? Eu quase tocava a tristeza da casa sem a sua função. Casa é, antes de tudo, personagem fundamental em minhas memórias, tristes e alegres. Jamais consegui vê-la como coisa porque é nela que habitam os nossos poemas, onde nos permitimos ser nós mesmos, intimamente. Uma casa numa praia é um convite para o repouso, para a festa, para amizade. Lamento muito se há muitas casas  em condição de abandono porque construir algo para abrigar o vazio, especialmente numa praia, simplesmente não cabe em minha mente infantil.

Josué Brito Santana

 

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