Sob o ponto de vista da eternidade, oficialmente O Vampiro de Curitiba se torna imortal agora que ele deixou o plano físico para ascender ao plano abstrato da vida. Oficialmente e Literalmente ele se torna um vampiro. As obras de Trevisan ecoarão pele presente e seguirão pelo futuro. Sua principal marca, dada pelos críticos literários de maior contista brasileiro do século XX ecoará por este século e pelos novos séculos. E ele será sempre um imortal mesmo sem a Academia Brasileira de Letras.
Dalton Trevisan faz jus ao título de Vampiro de Curitiba, não apenas pelo livro famoso, em que Nelsinho é o personagem principal dos contos. Talvez Nelsinho não tenha sido o personagem principal, mas sim Curitiba. O que há de Nelsinho em Trevisan, ou o que há de Trevisan em Nelsinho? O fato é que Trevisan, Vampiro de Curitiba, já era essencialmente um vampiro e agora se configura oficialmente nesta segunda-feira.
Ele fez jus à personalidade de um vampiro ao esquivar-se fisicamente de pessoas, da imprensa — em reclusão contínua e ampla. Mas dizem que ele não ficava escondido dentro de casa. Ele flanava por Curitiba, tinha amigos, ia a restaurantes vegetarianos, frequentava o Clube de Xadrez. E dizem que nos altos anos da velhice, ele também não vivia isolado. O fato é que ele soube ser recluso, recluso da claridade, ao menos da claridade dos holofotes da imprensa.
Com o tempo uma nova Curitiba surgirá, mas as diversas Curitibas que Trevisan vivenciou e mostrou continuarão eternas por causa dele. Elas se perpetuarão no futuro. E os problemas humanos da cidade serão os mesmos, os temas amorosos, o sexo, o gozo, o vazio existencial, as desilusões, as dores, a batalha dos casais, os crimes e suas vítimas continuarão a acontecer — como nas variações do mesmo tema das obras de Trevisan. Porque a vida no coletivo é como Trevisan mostrou: nua e crua em temas que se repetem, histórias que se repetem em novos personagens e eventos.
A morte aos 99 anos apenas oficializa imortalidade do Vampiro de Curitiba, que agora, ser abstrato, assume verdadeiramente a característica primeira de um vampiro: a perpetuação no tempo. A segunda característica do vampiro original é ser hematófago. Trevisan também sugou sangue, o sangue abstrato da realidade universal, e dessa absorção, veio sua literatura e a imortalidade.
Vald Ribeiro