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Morre hoje o homem que era contra a morte

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Vald Ribeiro

Morre hoje o homem que era contra a morte: Luis Fernando Veríssimo. Aliás, Veríssimo disse que era contra a morte em uma entrevista que dera à Folha de São Paulo em 2013. Nessa entrevista, ele também disse que a morte era uma sacanagem. Pois hoje a morte completou a sacanagem com Veríssimo e o tirou do nosso convívio físico.  Sem dúvida, foi uma puta sacanagem não só para Veríssimo, mas para nós habituados a ler as crônicas, os romances, assistir as peças dele.

Desde 2021, a morte aplicava lenta e gradual sacanagem a Veríssimo ao aplicar-lhe o mal de Parkinson e AVC. Desde essa época, ele era vítima da sacanagem dessas doenças — prenúncio da sacanagem final de hoje. Mas quem se acostumou a ler Veríssimo, nos últimos anos no Jornal O Globo, ou ler suas obras recentes, nunca se preparou para ficar sem a presença terrena dele.

Como genial escritor — escritor de bom humor —, que teve a grande audácia de vender mais de quatro milhões de livros, ele sai da Terra para entrar na imortalidade. Não a imortalidade da Academia Brasileira de Letras — que nunca a desejou —, nem a cristã — porque ele era ateu, e, portanto, o Céu não era seu escopo.  Ele galga a imortalidade dos bons artistas!  Isso é o que interessa, porque daqui a 100 anos, 1000 anos ele sempre será lido. Lido! Imortal! Lembrado! Lembrado como Machado de Assis, que já há 117 anos partiu dessa para melhor e ainda está vivinho por aqui. Lembrado como Homero que há 28 séculos faleceu fisicamente e tão vivo ainda entre nós…

Lembrei-me de um bate-papo do nosso novo imortal com o Escritor e médico Dr. Drauzio Varela quando do lançamento do livro As mentiras que as mulheres contam em 2015. Em um do momento da conversa, o magnífico Drauzio perguntou a Veríssimo sobre a morte. Dentre as indagações o médico e escritor perguntou  se os ateus, na opinião do nosso cronista imortal, saberiam lidar com a morte. Veríssimo respondeu que achava que os ateus não saberiam lidar, já que a angústia de morrer é comum a todas as pessoas. Disse também que os ateus teriam a angústia maior porque não tinham a expectativa da vida eterna no Céu depois da morte.  Já os cristão sofreriam menos por ter a expectativa do que vem depois da morte.

Será que Veríssimo passou pela angústia dos ateus frente à morte? Sendo gênio da literatura, bem que ele se sentia feliz pela imortalidade literária que está assegurada a ele. Se estava cônscio dessa imortalidade ele não teve a angústia dos ateus.

Esqueçamos se ele teve ou não angústia. Lembremos do bom humor literário, lembremos da Velhinha de Taubaté — a última pessoa que ainda acreditava no último ditador da última ditadura brasileira.  Lembremos de Ed Morte, do Analista de Bagé, das cobrinhas e suas mensagens subliminares, das críticas ácidas, ou doces,  e cheias de gostoso humor a que nosso cronista-mor fazia a FH, a ACM, à política brasileira e do mundo.  Lembremos das mentiras que os homens e as mulheres contam registradas nas crônicas. Lembremos da inclinação política dele pela Esquerda. Lembremos do olhar aguçado de Veríssimo sobre as coisas existenciais.  Lembremos dele com veríssimo bom humor, meio século de bom humor, agora eterno. 

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