Sábado, 7 de Março de 2026

Dossiê revela o anticomunismo na cobertura jornalística da antiga Rede Tupi

Em artigos publicados na nova edição da Revista USP, pesquisadores se aprofundam no acervo da extinta emissora, guardado pela Cinemateca Brasileira

por Palavras!
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Logotipo da Universidade de São Paulo (USP) em fundo amarelo.

Jornal da USP

Texto: Luiz Prado
Arte: Gustavo Radaelli*

Cine e telejornalismo são o assunto do dossiê publicado na nova edição da Revista USP – lançamento da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP. Organizado pelo professor Eduardo Morettin, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, o dossiê reúne seis artigos que têm origem em pesquisas feitas no acervo da antiga Rede Tupi, guardado pela Cinemateca Brasileira (CB), em São Paulo. A revista está disponível gratuitamente neste link.

A Tupi foi a primeira emissora de televisão do Brasil, inaugurada em 18 de setembro de 1950 em São Paulo. Fazia parte do conglomerado de comunicação Diários e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand. Reinou absoluta durante a década de 1950, mas depois passou a enfrentar a concorrência de outras emissoras, vivendo sucessivas crises até encerrar suas atividades, em 1980.

“As imagens armazenadas nos estojos do Fundo Tupi da Cinemateca Brasileira, adormecidas por muitas décadas, voltam a circular, recuperando a dimensão pública que tiveram no momento de sua primeira exibição”, escreve Morettin no artigo A Televisão como Fonte Histórica: as Telerreportagens do Fundo Tupi da Cinemateca Brasileira.

De acordo com o professor, o espólio da Tupi foi entregue ao Ministério da Educação e Cultura em 1985 e chegou à Cinemateca em 1987. Possui cerca de 180 mil rolos 16 mm de telerreportagens, além de roteiros de locução das notícias nacionais e das agências de notícias internacionais. O recorte sobre o qual os membros do projeto de pesquisa que gerou o dossiê se debruçaram é calculado em 150 mil telerreportagens. “Dos anos 1950 até meados da década seguinte, as notícias filmadas dos telejornais – muitas produzidas e enviadas por agências de notícias estrangeiras – formaram a cultura jornalística na televisão brasileira”, afirma Morettin no texto.

O Anticomunismo e as Massas no Cine Jornal Informativo, do professor Arthur Autran Franco de Sá Neto, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), é o artigo que abre o dossiê. Nele, o autor analisa reportagens do Cine Jornal Informativo (CJI), programa de informação e propaganda do governo federal produzido pela Agência Nacional, órgão vinculado ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Neto se detém em duas notícias, cujos conteúdos mostram o discurso anticomunista articulado à manifestações de massa.

As duas peças discutidas pelo professor estão situadas no período da presidência de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), um momento marcado pelo alinhamento aos Estados Unidos, a repressão ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) – colocado na ilegalidade em 1947 – e o rompimento das relações diplomáticas entre o governo brasileiro e a então União Soviética, também em 1947. Neto oferece comentários sobre a cobertura de duas manifestações: uma em apoio ao rompimento das relações diplomáticas e outra em desagravo à condenação à prisão perpétua de um cardeal da Hungria. Destacam-se nas duas reportagens cenas de discursos de Dutra intercaladas a imagens da massa de manifestantes.

O autor aponta uma série de contradições entre os discursos reproduzidos na primeira reportagem e a montagem das imagens. Elemento que, mesmo não tendo sido pensado pelos cineastas, é significativo do que representou o governo Dutra, segundo Neto. “Essa contradição é um documento expressivo acerca de um governo que se dizia democrático, mas defendia a proibição do principal partido de esquerda do País, assim como a cassação dos seus parlamentares; de um presidente da República eleito pelo povo após anos como uma das principais lideranças militares da ditadura do Estado Novo; de um discurso governamental que elogiava a participação dos trabalhadores, mas na prática reprimia severamente as greves.”

Para o professor, o governo Dutra considerava importante mostrar que suas ações de combate ao comunismo tinham respaldo popular. É nesse sentido que era estratégico registrar e divulgar esse apoio. “O que se afigura como mais significativo nas reportagens é o esforço do CJI, e por extensão do governo brasileiro, em construir um discurso audiovisual no qual as massas populares ocupassem lugar relevante na expressão do anticomunismo”, aponta Neto.

O presidente Eurico Gaspar Dutra discursa na sacada do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, em 1947 – Imagem: Cinemateca Brasileira

Multidão em frente ao Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, durante discurso do presidente Eurico Gaspar Dutra, em 1947 – Imagem: Cinemateca Brasileira

O professor Marcos Napolitano, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, por sua vez, dá um salto para o período da ditadura militar em A Esquerda Armada nos Telejornais da TV Tupi (1968-1971). Em sua contribuição, Napolitano revela como a imprensa atuou na desqualificação dos guerrilheiros que combateram o regime, muitas vezes reproduzindo discursos e narrativas oficiais emitidos pelos órgãos de segurança.

O artigo se concentra nas notícias a respeito dos assassinatos de Carlos Marighella, em 1969, e Carlos Lamarca, em 1971, veiculadas por três jornais da Tupi: Ultra NotíciasDiário de São Paulo na TV e Edição Extra. “Em relação à organização temática dos telejornais da TV Tupi, ao longo da periodização aqui analisada – 1968 a 1971 –, a organização das pautas e o conteúdo das notícias sobre a esquerda armada passou de registros mais distanciados, anódinos e informativos para um discurso audiovisual mais sensacionalista e que pode ser considerado como parte da propaganda do regime no combate à esquerda armada”, escreve Napolitano.

Particularmente a respeito da cobertura das mortes de Marighella e de Lamarca, o professor identifica uma significativa diferença no tom das reportagens veiculadas sobre cada um. Enquanto os informes sobre Marighella se pautaram pelo espetáculo e pela tentativa de destruir sua história, a morte de Lamarca foi pouco repercutida, indício de um reposicionamento da imprensa junto às novas regras da censura imposta pelo regime. Silenciamento era a palavra de ordem.

“Se, entre 1969 e parte de 1970, a imprensa foi peça importante na construção da imagem negativa das lideranças guerrilheiras e na cobertura de ações clandestinas e ilegais do terrorismo de Estado, a partir de então, a ditadura, através da censura, dispensaria tal colaboração”, escreve Napolitano. “Na lógica do regime, era melhor notícia nenhuma do que notícia plantada. Os desaparecimentos forçados de cadáveres, que se tornaram correntes a partir de então, iriam dispensar a construção de ‘notas oficiais’ e narrativas falsas sobre a morte de guerrilheiros.”

Imagens de telerreportagem sobre o assassinato de Carlos Marighella, em 1969 – Imagem: Cinemateca Brasileira

Em outro artigo, Mariana Villaça, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), trata da cobertura jornalística da Revolução Cubana e das tensões entre o país caribenho e os Estados Unidos. Villaça analisa 20 reportagens veiculadas pela TV Tupi entre 1960 e 1963, boa parte delas integrante de O Seu Repórter Esso, um dos principais jornais da emissora.

Em seu estudo, a professora atesta mais uma vez a presença de discursos anticomunistas, acentuados depois que Fidel Castro declarou o caráter socialista da Revolução Cubana, em 1961. Enquanto as primeiras reportagens apresentadas por Villaça são simpáticas – mostrando, por exemplo, a visita do então candidato à Presidência da República Jânio Quadros a Cuba, em 1960 –, no ano seguinte o tom adotado já é mais cauteloso. Não há condenações claras, mas a crise com os Estados Unidos é motivo de lamentações, aponta a autora. E pouco a pouco as reportagens adotam um tom pró-Estados Unidos, fazendo previsões sobre o fim próximo da Revolução.

“De modo frequente, nas reportagens menos simpáticas a Cuba, a constatação do acirramento das tensões vem acompanhada da perspectiva de derrocada próxima do ‘regime de Fidel’”, escreve Villaça. Exemplo disso é a cobertura da organização de um “movimento em defesa da democracia”, de cubanos exilados nos Estados Unidos, em reportagem de abril de 1961. E, no ano seguinte, o episódio da crise dos mísseis intensifica o discurso anticomunista. “A construção da narrativa inverte os papéis”, indica a professora. “Os Estados Unidos, ameaçados e em perigo, precisam se defender do país cujo governo, conforme vimos nas telerreportagens anteriores, perseguia jornalistas, vendia prisioneiros de guerra, atacava sacerdotes, escravizava crianças, regulava comida ao povo e desvirtuava jovens ao redor do mundo.”

O então candidato à Presidência da República Jânio Quadros em visita a Cuba, em 1960 – Imagem: Cinemateca Brasileira

Comunicação, política e fé

Além do dossiê, a Revista USP traz um texto a respeito do Jornal da USP, escrito por Marcia Blasques e Marcello Rollemberg, jornalistas do veículo, ao lado de Eugênio Bucci, professor da ECA. Trata-se de um estudo de caso sobre o próprio Jornal da USP, que apresenta a reestruturação da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP ocorrida em 2016, sob o comando de Bucci, responsável pelo fim da versão impressa do Jornal da USP e sua passagem para o on-line.

No texto, o trio discute as principais mudanças na SCS e no jornal e apresenta a missão, os objetivos e os valores que passaram a pautar esse setor da comunicação da USP. Analisa também os desafios do período de pandemia de covid-19 e faz um balanço de uma década do projeto. “Mais do que ser um veículo de imprensa ligado a uma universidade, o Jornal da USP procura traduzir e levar para um público amplo a filosofia da Universidade de São Paulo – ou seja, difundir o conhecimento e a cultura que emanam desta instituição, sem amarras ideológicas ou entraves, mas também fomentar o amplo debate acerca de todos os questionamentos que possam surgir e procurando levar respostas – que jamais serão definitivas ou peremptórias – que essa sociedade deseja e espera”, escrevem os autores.

Em outro texto, o pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) Guilherme Borges faz uma análise sociológica da presença de discursos religiosos durante o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Borges aponta que, apesar de as queixas contra a presidente não terem nenhum conteúdo religioso – Dilma estava sendo acusada de desrespeito à lei orçamentária e à lei de improbidade administrativa –, os discursos religiosos, sobretudo cristãos, foram usados para legitimar e justificar posições tanto dentro do Poder Legislativo quanto do Executivo.

A partir do estudo de matérias da Folha de S. PauloO Estado de S.Paulo e O Globo recolhidas em dois períodos distintos – a primeira campanha presidencial de Dilma, em 2010, e o processo de impeachment, em 2016 –, o pesquisador revela que em 2010 os discursos religiosos já estavam em operação. “Fica nítido que os episódios do impeachment elencados anteriormente não podem ser lidos como a irrupção súbita de uma presença religiosa até então marginal no período Dilma”, escreve Borges.

Segundo o autor, entre os dois momentos estudados houve uma crescente legitimação de referências e sensibilidades religiosas como critérios no cenário político. “As mobilizações católicas e evangélicas que ganharam centralidade no afastamento presidencial encontraram suas condições de possibilidade em transformações ocorridas pelo menos a partir da eleição de 2010, quando já existia a circulação de tais balizas com densidade e eficácia no interior das arenas políticas”, afirma.

A edição inclui ainda um ensaio fotográfico do professor da ECA Atílio Avancini sobre a festa da Lavagem da Igreja do Bonfim, em Salvador, e as resenhas dos livros Wreckers: Disaster in the Age of Discovery, de Simon Park, e O Segredo Final, de Dan Brown.

Revista USP, número148, dossiê Cine e Telejornalismo – Perspectivas Históricas sobre a Imprensa Audiovisual (Cinejornais e Telejornais), publicação da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP, 204 páginas. A revista está disponível gratuitamente neste link.

*Estagiário sob supervisão de Simone Gomes

Publicado no Jornal da USP

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