Texto: Luiz Prado
Arte: Gustavo Radaelli*
Cine e telejornalismo são o assunto do dossiê publicado na nova edição da Revista USP – lançamento da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP. Organizado pelo professor Eduardo Morettin, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, o dossiê reúne seis artigos que têm origem em pesquisas feitas no acervo da antiga Rede Tupi, guardado pela Cinemateca Brasileira (CB), em São Paulo. A revista está disponível gratuitamente neste link.
A Tupi foi a primeira emissora de televisão do Brasil, inaugurada em 18 de setembro de 1950 em São Paulo. Fazia parte do conglomerado de comunicação Diários e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand. Reinou absoluta durante a década de 1950, mas depois passou a enfrentar a concorrência de outras emissoras, vivendo sucessivas crises até encerrar suas atividades, em 1980.
“As imagens armazenadas nos estojos do Fundo Tupi da Cinemateca Brasileira, adormecidas por muitas décadas, voltam a circular, recuperando a dimensão pública que tiveram no momento de sua primeira exibição”, escreve Morettin no artigo A Televisão como Fonte Histórica: as Telerreportagens do Fundo Tupi da Cinemateca Brasileira.
De acordo com o professor, o espólio da Tupi foi entregue ao Ministério da Educação e Cultura em 1985 e chegou à Cinemateca em 1987. Possui cerca de 180 mil rolos 16 mm de telerreportagens, além de roteiros de locução das notícias nacionais e das agências de notícias internacionais. O recorte sobre o qual os membros do projeto de pesquisa que gerou o dossiê se debruçaram é calculado em 150 mil telerreportagens. “Dos anos 1950 até meados da década seguinte, as notícias filmadas dos telejornais – muitas produzidas e enviadas por agências de notícias estrangeiras – formaram a cultura jornalística na televisão brasileira”, afirma Morettin no texto.
O Anticomunismo e as Massas no Cine Jornal Informativo, do professor Arthur Autran Franco de Sá Neto, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), é o artigo que abre o dossiê. Nele, o autor analisa reportagens do Cine Jornal Informativo (CJI), programa de informação e propaganda do governo federal produzido pela Agência Nacional, órgão vinculado ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Neto se detém em duas notícias, cujos conteúdos mostram o discurso anticomunista articulado à manifestações de massa.
As duas peças discutidas pelo professor estão situadas no período da presidência de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), um momento marcado pelo alinhamento aos Estados Unidos, a repressão ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) – colocado na ilegalidade em 1947 – e o rompimento das relações diplomáticas entre o governo brasileiro e a então União Soviética, também em 1947. Neto oferece comentários sobre a cobertura de duas manifestações: uma em apoio ao rompimento das relações diplomáticas e outra em desagravo à condenação à prisão perpétua de um cardeal da Hungria. Destacam-se nas duas reportagens cenas de discursos de Dutra intercaladas a imagens da massa de manifestantes.
O autor aponta uma série de contradições entre os discursos reproduzidos na primeira reportagem e a montagem das imagens. Elemento que, mesmo não tendo sido pensado pelos cineastas, é significativo do que representou o governo Dutra, segundo Neto. “Essa contradição é um documento expressivo acerca de um governo que se dizia democrático, mas defendia a proibição do principal partido de esquerda do País, assim como a cassação dos seus parlamentares; de um presidente da República eleito pelo povo após anos como uma das principais lideranças militares da ditadura do Estado Novo; de um discurso governamental que elogiava a participação dos trabalhadores, mas na prática reprimia severamente as greves.”
Para o professor, o governo Dutra considerava importante mostrar que suas ações de combate ao comunismo tinham respaldo popular. É nesse sentido que era estratégico registrar e divulgar esse apoio. “O que se afigura como mais significativo nas reportagens é o esforço do CJI, e por extensão do governo brasileiro, em construir um discurso audiovisual no qual as massas populares ocupassem lugar relevante na expressão do anticomunismo”, aponta Neto.


O professor Marcos Napolitano, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, por sua vez, dá um salto para o período da ditadura militar em A Esquerda Armada nos Telejornais da TV Tupi (1968-1971). Em sua contribuição, Napolitano revela como a imprensa atuou na desqualificação dos guerrilheiros que combateram o regime, muitas vezes reproduzindo discursos e narrativas oficiais emitidos pelos órgãos de segurança.
O artigo se concentra nas notícias a respeito dos assassinatos de Carlos Marighella, em 1969, e Carlos Lamarca, em 1971, veiculadas por três jornais da Tupi: Ultra Notícias, Diário de São Paulo na TV e Edição Extra. “Em relação à organização temática dos telejornais da TV Tupi, ao longo da periodização aqui analisada – 1968 a 1971 –, a organização das pautas e o conteúdo das notícias sobre a esquerda armada passou de registros mais distanciados, anódinos e informativos para um discurso audiovisual mais sensacionalista e que pode ser considerado como parte da propaganda do regime no combate à esquerda armada”, escreve Napolitano.
Particularmente a respeito da cobertura das mortes de Marighella e de Lamarca, o professor identifica uma significativa diferença no tom das reportagens veiculadas sobre cada um. Enquanto os informes sobre Marighella se pautaram pelo espetáculo e pela tentativa de destruir sua história, a morte de Lamarca foi pouco repercutida, indício de um reposicionamento da imprensa junto às novas regras da censura imposta pelo regime. Silenciamento era a palavra de ordem.
“Se, entre 1969 e parte de 1970, a imprensa foi peça importante na construção da imagem negativa das lideranças guerrilheiras e na cobertura de ações clandestinas e ilegais do terrorismo de Estado, a partir de então, a ditadura, através da censura, dispensaria tal colaboração”, escreve Napolitano. “Na lógica do regime, era melhor notícia nenhuma do que notícia plantada. Os desaparecimentos forçados de cadáveres, que se tornaram correntes a partir de então, iriam dispensar a construção de ‘notas oficiais’ e narrativas falsas sobre a morte de guerrilheiros.”



Imagens de telerreportagem sobre o assassinato de Carlos Marighella, em 1969 – Imagem: Cinemateca Brasileira
Em outro artigo, Mariana Villaça, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), trata da cobertura jornalística da Revolução Cubana e das tensões entre o país caribenho e os Estados Unidos. Villaça analisa 20 reportagens veiculadas pela TV Tupi entre 1960 e 1963, boa parte delas integrante de O Seu Repórter Esso, um dos principais jornais da emissora.
Em seu estudo, a professora atesta mais uma vez a presença de discursos anticomunistas, acentuados depois que Fidel Castro declarou o caráter socialista da Revolução Cubana, em 1961. Enquanto as primeiras reportagens apresentadas por Villaça são simpáticas – mostrando, por exemplo, a visita do então candidato à Presidência da República Jânio Quadros a Cuba, em 1960 –, no ano seguinte o tom adotado já é mais cauteloso. Não há condenações claras, mas a crise com os Estados Unidos é motivo de lamentações, aponta a autora. E pouco a pouco as reportagens adotam um tom pró-Estados Unidos, fazendo previsões sobre o fim próximo da Revolução.
“De modo frequente, nas reportagens menos simpáticas a Cuba, a constatação do acirramento das tensões vem acompanhada da perspectiva de derrocada próxima do ‘regime de Fidel’”, escreve Villaça. Exemplo disso é a cobertura da organização de um “movimento em defesa da democracia”, de cubanos exilados nos Estados Unidos, em reportagem de abril de 1961. E, no ano seguinte, o episódio da crise dos mísseis intensifica o discurso anticomunista. “A construção da narrativa inverte os papéis”, indica a professora. “Os Estados Unidos, ameaçados e em perigo, precisam se defender do país cujo governo, conforme vimos nas telerreportagens anteriores, perseguia jornalistas, vendia prisioneiros de guerra, atacava sacerdotes, escravizava crianças, regulava comida ao povo e desvirtuava jovens ao redor do mundo.”

Comunicação, política e fé
Além do dossiê, a Revista USP traz um texto a respeito do Jornal da USP, escrito por Marcia Blasques e Marcello Rollemberg, jornalistas do veículo, ao lado de Eugênio Bucci, professor da ECA. Trata-se de um estudo de caso sobre o próprio Jornal da USP, que apresenta a reestruturação da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP ocorrida em 2016, sob o comando de Bucci, responsável pelo fim da versão impressa do Jornal da USP e sua passagem para o on-line.
No texto, o trio discute as principais mudanças na SCS e no jornal e apresenta a missão, os objetivos e os valores que passaram a pautar esse setor da comunicação da USP. Analisa também os desafios do período de pandemia de covid-19 e faz um balanço de uma década do projeto. “Mais do que ser um veículo de imprensa ligado a uma universidade, o Jornal da USP procura traduzir e levar para um público amplo a filosofia da Universidade de São Paulo – ou seja, difundir o conhecimento e a cultura que emanam desta instituição, sem amarras ideológicas ou entraves, mas também fomentar o amplo debate acerca de todos os questionamentos que possam surgir e procurando levar respostas – que jamais serão definitivas ou peremptórias – que essa sociedade deseja e espera”, escrevem os autores.
Em outro texto, o pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) Guilherme Borges faz uma análise sociológica da presença de discursos religiosos durante o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Borges aponta que, apesar de as queixas contra a presidente não terem nenhum conteúdo religioso – Dilma estava sendo acusada de desrespeito à lei orçamentária e à lei de improbidade administrativa –, os discursos religiosos, sobretudo cristãos, foram usados para legitimar e justificar posições tanto dentro do Poder Legislativo quanto do Executivo.
A partir do estudo de matérias da Folha de S. Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo recolhidas em dois períodos distintos – a primeira campanha presidencial de Dilma, em 2010, e o processo de impeachment, em 2016 –, o pesquisador revela que em 2010 os discursos religiosos já estavam em operação. “Fica nítido que os episódios do impeachment elencados anteriormente não podem ser lidos como a irrupção súbita de uma presença religiosa até então marginal no período Dilma”, escreve Borges.
Segundo o autor, entre os dois momentos estudados houve uma crescente legitimação de referências e sensibilidades religiosas como critérios no cenário político. “As mobilizações católicas e evangélicas que ganharam centralidade no afastamento presidencial encontraram suas condições de possibilidade em transformações ocorridas pelo menos a partir da eleição de 2010, quando já existia a circulação de tais balizas com densidade e eficácia no interior das arenas políticas”, afirma.
A edição inclui ainda um ensaio fotográfico do professor da ECA Atílio Avancini sobre a festa da Lavagem da Igreja do Bonfim, em Salvador, e as resenhas dos livros Wreckers: Disaster in the Age of Discovery, de Simon Park, e O Segredo Final, de Dan Brown.
Revista USP, número148, dossiê Cine e Telejornalismo – Perspectivas Históricas sobre a Imprensa Audiovisual (Cinejornais e Telejornais), publicação da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP, 204 páginas. A revista está disponível gratuitamente neste link.
*Estagiário sob supervisão de Simone Gomes
Publicado no Jornal da USP
