Não fui à posse do escritor Milton Hatoum na sexta-feira passada na Academia Brasileira de Letras — até porque não estou no Rio, não faço parte do círculo de amizade do escritor, nem sou jornalista especial para entrar no Petit Trianon. Acompanhei pela internet o belo discurso. Falar que o escritor Milton Hatoum fez um belo discurso é bem redundante porque todos nós sabemos que ele, escritor prosa boa — no sentido mais stricto sensu da teoria da literatura — faria sim um discurso majestoso. É na prosa boa da literatura de Hatoum que todo leitor tem pleno gozo, plena fruição literária nos nove romances, nos contos e crônicas que ele escreveu. A prosa boa do escritor pode ser provada também nas estatísticas: tricampeão do Prêmio Jabuti, livros traduzidos em 17 países, a vendagem de mais de 500 mil livros, os vários prêmios literários que ele recebeu mundo afora.
O discurso fluiu tranquilo e delicioso. Nas homenagens, ele louvou Cicero Sandroni, o acadêmico que ocupava a cadeira número 6 da ABL até 2025, que agora será o assento do escritor manauara. A boa prosa seguiu, a bem dizer, em perfeita fruição. Falou bem da sua terra natal, da literatura em nobres citações.
Tudo me chamou atenção no discurso, mas tenho que citar apenas três, porque meu objetivo aqui não é ser o repórter na posse do Hatoum. Logo no início do discurso, entre os agradecimentos, ele mencionou que sua presença ali era uma homenagem aos seus leitores e aos professores da Amazônia e do Brasil. Mais tarde, lembrou de bom grado dos docentes que o incentivaram à literatura: um professor de geografia e uma professora de Português. Gesto nobre do novo Imortal lembrar dos professores, esses abnegados heróis da educação sempre esquecidos também nos discursos! E, bem no finalzinho da boa prosa de posse, ele veio com mais homenagens aos mestres. Para ilustrar, citou o caso de um livreiro manauara que sempre lhe presenteava. Em um desses presentes — dois livros — o livreiro enviou um bilhete, cuja frase grudou na minha memória desde a sexta-feira: “para que não te esqueças das professoras que te levaram à Literatura”. Hatoum afirma que não esqueceu, e acrescenta: “Às professoras que formaram e continuam a formar leitores críticos, dedico este texto ‘imigrantes do imaginário’, que também é uma singela homenagem a todos vocês”.
Sem delongas, quero falar mesmo é de dois outros belos momentos do discurso: “enquanto houver a vida neste mundo em chamas, haverá histórias a ser narradas, lidas e ouvidas”. Veja o poder desta afirmação! O que seria de nós não fossem as narrativas, sobretudo as literárias? Elas, para mim, funcionam como os sonhos. Os sonhos, segundo a ciência, servem para a reorientação do nosso cérebro, para a limpeza e manutenção neural. Não é assim que a literatura age em nós? Na continuação da afirmação acima, Hatoum afirma: “não vivemos apenas no real. Vivemos também no imaginário dos sonhos, na literatura, nas artes no teatro, essa arte viva na experiência Mística”. Veja como ele filosofou e disse a mais pura realidade humana! O que seria de nós sem essas artes, sem o sonho? O que seria se apenas vivêssemos na dura realidade? E ele responde, na continuidade do discurso: “vivemos também no devaneio. A humanidade não pode suportar tanta realidade”.
O outro momento — entre filosofias literárias besuntadas de existencialismo e questões sociais — ele, em lúcida consciência literária do grande escritor que é, carnavalizou o discurso ao falar sobre narrativas e citar Graciliano Ramos, Clarice Lispector, os romances Vidas Secas e A Hora da Estrela, Fabiano e Vitória, personagens centrais de Vidas Secas. Na imaginação dele, Macabéia é sobrinha de Fabiano e Sinhá Vitória. Veja que carnavalização perfeita! Ele também disse que viu parentescos de Fabiano e Vitória no poema Morte e Vida Severina; também parentesco distante em personagens de Grande sertão: veredas. Arrepiei até os pelos da alma com essa magnifica alusão!
Enfim, Hatoum é prosa boa até no discurso!
Vald Ribeiro