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Seremos dados a Milton Santos?

No próximo dia 3 de maio, celebra-se o centenário de nascimento de um dos mais prestigiados intelectuais brasileiros do século 20. Em artigo, a docente Maria Encarnação Beltrão Sposito aborda a originalidade da obra de Milton Santos, analisa o impacto de seu pensamento dentro e fora do Brasil e rememora o título de doutor Honoris Causa que lhe foi outorgado pela Unesp em 1997.

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Logotipo do Jornal da UNESP, comemorando 50 anos da universidade.

Maria Encarnação Beltrão Sposito

Tomo emprestada a primeira parte do título do livro de Marcus Bruzzo[1]Seremos dados, para refletir sobre a importância de Milton Santos, cujo centenário de nascimento comemoramos em 3 de maio de 2026.

Faz todo sentido conjecturar como agiria Milton Santos, com sua vitalidade intelectual e capacidade de observação, se estivesse hoje entre nós. Escreveria posts nas redes sociais comunicando suas ideias mais recentes? Alcançaria milhares ou milhões de seguidores no Instagram? Difundiria suas obras em podcasts? Contestaria as sínteses sobre suas teorias propostas pelas plataformas de inteligência artificial?

É difícil cravar respostas para essas questões, porque as possibilidades são muitas. Esse geógrafo tinha, ao mesmo tempo, grande capacidade de absorver o novo e de pensar o futuro. Seu espírito crítico, vez ou outra irônico, o levaria a leituras severas sobre o presentismo que nos cerca, bem como sobre o fato de que, pouco a pouco, nos encontramos mais próximos de uma posição de subalternidade em relação à Inteligência Artificial do que de comandá-la.

De todo modo, mesmo sem estar vivo hoje, ele pensou nosso presente, ao periodizar o capitalismo e reconhecer a constituição do meio técnico-científico-informacional como aquele em que vivemos. Nada é mais próprio para conceituar o mundo contemporâneo, fortemente plataformizado, ancorado na combinação entre tecnologias de comunicação e sistemas de informação, num momento em que, como destaca Bruzzo, a IA, que muitos veem como uma ferramenta que nos auxilia a estender capacidades e ampliar a eficácia, esteja se transformando num agente que opera sobre a vida, redefinindo nosso horizonte de imaginação.

Milton Santos se distinguiu por sua grande capacidade de distinguir períodos, valorizando a dimensão espacial, bem como de apreender as crises como rupturas entre um tempo e outro. E, sobretudo, frisou, de modo muito pertinente, que o fato de vivermos uma superposição entre período e crise é uma característica essencial da fração de tempo histórico em que estamos[2].

Em função de sua capacidade de formular sínteses, reconhecer rupturas e sistematizar leituras do país e do mundo por meio de teorias, compreendidas como conceitos articulados entre si, é que podemos adjetivá-lo como genial.

Pensava de modo original, razão pela qual publicou dezenas de livros e elaborou, ao menos, dois sistemas teóricos completos: a Teoria dos dois circuitos da economia urbana[3] e a Natureza do espaço[4].

Pelo primeiro mostrou que a economia urbana, nos países então chamados de subdesenvolvidos, organizava-se espacial e economicamente por meio de dois circuitos interdependentes. São eles o superior, caracterizado pela força do capital intensivo, alta tecnologia, domínio de grandes indústrias e serviços modernos associados à economia sobretudo global; e o inferior, desenvolvido com base no trabalho intensivo, em baixa tecnologia e na pequena escala do comércio e dos serviços, associados à pobreza urbana e à informalidade. E enfatizou a importância de conceber esses dois circuitos de modo interdependente, o que revela seu modo de pensar dialeticamente.

Aliás, ele era mestre em compor pares dialéticos. Foi o que fez em sua segunda grande teoria, compreendendo o espaço geográfico como um conjunto solidário e contraditório de sistemas de objetos e sistemas de ações; ao destacar desde o título desta obra as articulações intrínsecas entre razão e emoção; e ao combinar tecnoesfera com psicoesfera, fixos com fluxos, espaço luminosos e espaços opacos, verticalidades e horizontalidades etc.

Era também genial porque dominava os discursos que proferia, no aspecto do conteúdo e das palavras que acionava com maestria, gerando um efeito de imã sobre as plateias que o acompanhavam. Sua oratória era capaz de comunicar ideias complexas de modo simples, mas também preservava algo de indecifrável, como um convite à reflexão por parte daqueles que o escutavam.

Sua genialidade, como, aliás, a de todos os grandes intelectuais, não resultava de “dons naturais”, ainda que fossem notáveis sua inteligência e sua criatividade, mas de uma disciplina rígida e constante. Até sua morte, mantinha o hábito de anotar ideias com canetas de cores diferentes, para distinguir o grau e o teor delas[5], de respeitar solenemente as horas de cada dia que deveriam ser dedicadas à leitura e à escrita, de ler os resumos de textos que seriam no dia seguinte apresentados nas sessões de eventos científicos a que assistiria.

Deixou um vasto legado, não apenas na forma de suas grandes teorias, mas pelo enorme conjunto de publicações[6]. Muitas merecem continuar a ser decifradas porque são portadoras de uma leitura de devir possível; ser atualizadas, uma vez que continuam consistentes, à medida que são interpretadas pelas variáveis do período atual; ser tensionadas pelo debate acerca de suas ideias, sempre marcadas pela relação entre abstração e empiria.

Era genial porque, tendo se graduado em Direito, destacou-se no Brasil e no exterior pela Geografia que produziu. Suas ideias transcenderam este campo de trabalho e são lidas por pesquisadores de várias disciplinas, viajando além da seara acadêmico-científica para inspirar políticos de esquerda, movimentos sociais e artistas de vanguarda[7][1].

Nos últimos anos de sua vida tornou-se uma figura pública de destaque, tanto em função do reconhecimento de sua contribuição, ao mesmo tempo científica e política para ler o Brasil e o mundo, como pelas últimas publicações que tornaram suas ideias acessíveis a um número maior de pessoas[8][2].

À Universidade Estadual Paulista, Unesp, Milton Santos dedicou amizade e respeito. Por meio de Armen Mamigonian, assim que voltou do exílio a que foi submetido pela ditadura militar, ministrou palestras no campus de Presidente Prudente, onde voltou a se apresentar várias vezes; contribuiu com a reflexão e o debate com diversas falas realizados no Instituto de Geociências e Ciências Exatas do campus de Rio Claro; participou ativamente do Simpósio Multidisciplinar Internacional  “O Pensamento de Milton Santos e a Construção da Cidadania em Tempos de Globalização”, em 1997, realizado no campus de Bauru desta universidade por iniciativa da Associação dos Geógrafos Brasileiros, seção local; concedeu, nos últimos anos de sua vida, longa entrevista que gerou o livro O testamento intelectual publicado, pela Editora da Unesp.

Por fim, pela sua importância, pela amizade que é sempre institucional e pessoal, o Conselho Universitário outorgou-lhe o título de doutor honoris causa em 1997, saudado em discurso pelo então reitor professor Antônio Manoel dos Santos e por mim, em nome do Departamento de Geografia do campus de Presidente Prudente.

É fácil responder à indagação que intitula este texto, pois há inúmeras razões para nos darmos à obra de Milton Santos. Penso que, se quisermos ir além de ser dados apenas, como um receptáculo de algoritmos, temos que buscar o pleno desenvolvimento de nossa imaginação e criatividade, de nossa capacidade de interpretação e de crítica. A oportunidade que nos oferece a efeméride dos cem anos de seu nascimento deve ser compreendida, assim, como um convite solene à reflexão sobre suas ideias.

Maria Encarnação Beltrão Sposito é professora titular aposentada da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNESP, câmpus de Presidente Prudente, e professora visitante da Universidade Federal do Paraná.


[1] BRUZZO, Marcos. Seremos dados: a filosofia da perda do espaço humano para a inteligência artificial. São Paulo: Difel, 2026.

[2] Como síntese desta ideia, ver: SANTOS, Milton. A normalidade da crise. Folha de São Paulo. 26/9/1991. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/dc_3_4.htm

[3] Embora o tema já estivesse sendo alinhavado em outros textos, o livro que contém esta teoria foi publicado em 1975, na França: L’espace partagé, pela Editions Librairies Techniques. No Brasil, foi editado em 1979, com o título O espaço dividido, pela Livraria Editora Francisco Alves. Sua atualidade pode ser atestada pelo fato de ter sido reeditado em inglês em 2018, como The Shared Space: the two circuits of the urban economy in underdeveloped countries, pela Routledge Library Editions.

[4] A primeira difusão desta teoria é de 1996, pela Editora Hucitec, com o título A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e EmoçãoFoi traduzido para o francês e publicado pela L’Harmattan, em 2000, com o título de La nature de l’espacepara o espanhol como La naturaleza del espaciopela Ariel também em 2000 e, para o inglês, em 2021, pela Duke University Press, intitulado The nature of space.

[5] No livro Milton Santos: Testamento intelectual organizado por Jesus de Paula Assis e publicado pela Editora da Unesp, em 2004, há fac similes de algumas páginas das cadernetas, em que ele fazia anotações.

[6] Para ter acesso a uma visão de conjunto, ver https://miltonsantos.com.br/site/. Para conhecer uma excelente análise de sua obra, ler: VASCONCELOS, Pedro A. O universo conceitual de Milton Santos. Curitiba: Editora CRV, 2020. A quase totalidade de sua obra foi republicada pela Edusp, editora da Universidade de São Paulo (USP), em que Milton Santos trabalhou por duas décadas, no Departamento de Geografia.

[7] Entre tantas referências que seriam possíveis, destaco a dramaturga e atriz Denise Stoklos que, em 2000, para marcar o “descobrimento” do Brasil criou a peça “Vozes Dissonantes”, baseada principalmente nas ideias de Milton Santos sobre as relações entre território, cidadania e perversidade sob a globalização.

[8] Destaco os livros: Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal, publicado em 2000 pela Editora Record, e O País Distorcido. O Brasil, a globalização e a cidadaniaque reúne artigos de Milton Santos, publicados na imprensa e divulgados novamente, pela Publifolha em 2002.

Publicado no Jornal da Unesp

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